21 lições para o século 21

Breve ensaio sobre a lucidez

Uma cultura pode ser considerada melhor que outra? As religiões tradicionais podem ajudar a tornar o mundo melhor? Qual o futuro do trabalho? Como devemos educar nosso filhos e netos?

Não é somente com lucidez e objetividade estonteantes, mas também com originalidade e coragem que o historiador israelense Yuval Noah Harari aborda essas e outras questões em seu mais novo livro, 21 Lições para o Século 21. Dividido em 5 partes e 21 capítulos, Harari discorre sobre como essas questões atuais, que ocupam tanto os grandes think tanks quanto os telejornais, afetarão nossas vidas nas décadas seguintes.

Em suas obras anteriores, o israelense abordou as origens e os destinos da humanidade. Em Sapiens, descreveu como o gênero humano saiu das selvas e dominou o planeta, devido à sua capacidade de cooperação flexível em larga escala. Em Homo Deus foi o futuro que foi dissecado, e a visão distópica harariana impressionou o mundo, causando muita curiosidade e discordância.

Em 21 lições para o Século 21, Harari põe os pés no chão e coloca sua visão numa dimensão pragmática. Aqui ele procura responder a dúvidas práticas que surgiram em muitos debates sobre seus livros anteriores. Afinal, não faz diferença ter uma postura secular? A verdade e a objetividade têm alguma relevância ou estamos condenados a viver num eterno samsara pós-moderno?

Capa do livro 21 lições para o século 21.
Capa do livro, editora Companhia das letras, 1ª ed, 2018, 432p.

Mas, leitor, não se assuste. É Yuval Harari quem está lá. E com a mesma frequência que costuma entrar numa espécie de estado de graça cognitivo. Sua visão de satélite ampla continua bem calibrada. Há um sentido global em seu livro: o autor segue um caminho mais ou menos inverso ao de sua obra pregressa. Ao ler a primeira parte, podemos ter a sensação de estarmos lendo Homo Deus, mas com novos detalhes importantes. Em especial, aqueles sobre a atual crise da democracia e os impressionantes efeitos da inteligência artificial e do big data no mercado de trabalho. Nas três partes seguintes, os conflitos entre realidade e ilusão, conhecimento e ignorância, simplicidade e complexidade, localidade e universalidade estão lá. Um banquete farto para nós que ansiamos por uma experiência profunda com o historiador israelense. Há um clímax no capítulo sobre ficção científica sobre maneira que os conflitos da humanidade são apresentados em vários filmes e livros. Como se fosse um bom romancista, o jovem ensaísta nos impressiona com sua visão da condição humana apresentada em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

Na parte final, o autor expõe a essência de seu pensamento: narrativas. Ele construiu sua obra contando a narrativa das narrativas. Em “21 Lições…” Harari descreve, num longo capítulo, como as narrativas moldam a história e como sua compreensão deve ser a pedra angular para qualquer abordagem do futuro da humanidade.

No último capítulo, somos apresentados, desta vez, de forma mais explícita que nos livros anteriores, ao que o autor considera a única luz no fim do túnel do drama das narrativas: a transcendência do sentido de self por meio da prática da meditação. Pedindo licença para uma abordagem por meio de uma visão pessoal, o autor nos convida à reflexão.

Como queixa, destaco apenas que em alguns pontos Yuval Harari fala sem se aprofundar sobre a relação tensa entre ciência e ideologia, em especial sobre como movimentos identitários concebem a questão. É impossível extrair dos três famosos livros do israelense uma postura anticientífica, devido a sua base naturalista e racional. Ainda assim, alguns pontos onde existe certa tensão epistemológica mereciam melhor aprofundamento.

Mas isso é uma pequena gota de insatisfação num oceano de brilhantismo. 21 Lições para o Século 21 é um livro sério, profundamente provocativo e indispensável.

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Author: Claudio Farias

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