O caminho de um pesquisador. Da graduação até a academia.

Muito gente sonha em ser cientista, ou pesquisador, mas não sabe direito os caminhos a serem percorridos. A falta de informação prejudica não apenas aqueles que querem seguir o caminho, como tantos outros que costumam criticar os pesquisadores, muitas vezes achando que estão a receber dinheiro apenas para estudar. Por isso decidimos fazer este artigo, para explicar melhor os caminhos que o pesquisador deve passar, não apenas no Brasil como no mundo inteiro. E explicar, também, seus direitos e deveres.

Academicamente falando, o caminho começa na graduação, ainda que algumas vezes possa começar no ensino médio. Há programas hoje de iniciação à ciência já para alunos do ensino médio, mas em geral o jovem só entra mesmo no caminho da pesquisa a partir do terceiro período da graduação, onde ele pode se qualificar para o que chamamos de iniciação científica, IC. Na IC, o aluno é apresentado ao método científico, e pode concorrer a uma bolsa de pesquisa, que hoje paga o aproximado a R$ 400 mensais, pelo período de até dois anos. Durante este período, o aluno precisa se dedicar ao estudo ou pesquisa de um tópico específico, e ao fim de cada ano apresentar para uma banca, verbalmente, os resultados obtidos. Não é esperado que o aluno desenvolva nada original durante este período, apenas que se dedique parcialmente à pesquisa, e reporte o que foi estudado ou pesquisado.

Com o fim da graduação, começa efetivamente a carreira do pesquisador. Em geral, o aluno deve partir para o mestrado, ainda que não seja obrigatório. Ele pode, por exemplo, ir diretamente para o doutorado, porém no Brasil essa não é uma opção muito comum. Em geral o aluno buscar ingressar no mestrado, e deve para isso passar por um processo seletivo. Os critérios do processo seletivo são definidos pela instituição que o aluno deseja ingressar, não somente para o ingresso, mas também para a obtenção de uma bolsa de pesquisa. No caso do mestrado, a bolsa de pesquisa gira em torno do valor de R$ 1.500 mensais, e tem duração máxima de dois anos. Durante esses dois anos, o aluno deve realizar diversas disciplinas, além de estudar algum tópico especial, que será apresentado ao final de seu mestrado, verbalmente e em uma dissertação escrita, para uma banca composta de três professores. Essa dissertação em geral tem em torno de sessenta páginas, e não precisa conter um trabalho original, ainda que isso seja desejado. Se aprovado, o aluno terá o título de mestre. Vale dizer que durante a maior parte desses dois anos, o aluno terá um orientador, que é um professor da instituição, a orienta-lo nesse processo.

Ao fim do mestrado, o aluno deve ir para o doutorado, que no exterior é o famoso PhD. Novamente, precisa passar por um processo seletivo, onde concorrerá com outros de formação similar. O aluno pode ser aprovado com ou sem uma bolsa de pesquisa. Se obtiver a bolsa, a mesma gira em torno de R$ 2.200 mensais, e tem duração máxima de quatro anos. No doutorado, o aluno terá ainda de fazer algumas disciplinas, porém passará a maior parte do tempo realizando sua pesquisa. Em geral, na metade do caminho (ou seja, no final do segundo ano), o aluno deve obter sua qualificação para prosseguir no doutorado. A forma da qualificação é definida pelo departamento, e costumeiramente trata-se de uma apresentação verbal, para uma banca interna, do seu progresso obtido até o momento. Se qualificado, o aluno está apto a prosseguir até o fim do doutoramento. Se reprovado, o aluno pode ser desligado do programa.

Durante o doutoramento, o aluno também é orientado por um professor, e é comum que ambos publiquem juntos ao menos um artigo científico em revistas especializadas. A quantidade média de artigos que ele irá publicar depende muito de sua área de pesquisa, porém ele irá tentar publicar o máximo de artigos possíveis. No momento que o aluno e seu orientador acharem oportuno, o aluno irá defender sua tese de doutoramento, agora para uma banca composta de cinco pesquisadores. A tese escrita deverá conter em torno de cem páginas, com resultados originais, como aqueles publicados nas revistas científicas. Se aprovado, o aluno obterá o título de doutor, que é o maior título acadêmico que alguém pode obter.

Algumas observações importantes sobre as bolsas de pesquisa. Como uma bolsa de ajuda de custo, ela não se enquadra na categoria de salário, e, portanto, não possui descontos, como imposto de renda, inss, etc. Por outro lado, o bolsista também não tem os direitos da seguridade social, ou seja, não possui férias, décimo-terceiro, seguro desemprego, nem conta como anos contribuídos ao inss. Também em geral não é possível ao bolsista ter um emprego paralelo, de forma que ele precisa viver com o valor da bolsa. Se quiser trabalhar e fazer o mestrado/doutorado ao mesmo tempo, ele provavelmente terá que abrir mão de sua bolsa. Apesar de ser um pesquisador, e muitas vezes ter de passar o dia no laboratório, muitos ainda acham que o aluno de doutorado está recebendo para estudar, o que é um conceito completamente equivocado.

Terminado o doutorado, e agora? Bom, em geral bate aquele desespero, porque o pesquisador deixa de receber abruptamente seus vencimentos, e não tem nenhum direito adquirido. O caminho natural é buscar uma bolsa de pós-doutoramento, onde ele poderá continuar sua pesquisa, desta vez totalmente focada na publicação de artigos científicos. O problema é que no Brasil há poucas bolsas de pós-doutoramento, de forma que muitos doutores acabam abandonando a pesquisa para buscar um emprego em qualquer vaga disponível. Mas voltemos ao caminho natural, que é o pós-doutorado. Caso o doutor consiga uma bolsa, novamente através de um processo seletivo, ele será um estagiário de pós-doutoramento, o que não concede título algum. Basicamente, é um emprego onde ele se dedicará apenas a sua pesquisa. Nos estados unidos e na Europa, o pós-doutoramento consiste realmente em um emprego, onde o pesquisador tem salário, descontos, férias, etc. No Brasil, continua sendo uma bolsa, em geral no valor de R$ 4.100 mensais, nos mesmos termos já mencionados acima.

A duração da bolsa é incerta, dependendo muito da modalidade da bolsa. Sua duração média é de dois anos, e após esse período o pesquisador pode concorrer a uma nova bolsa, e assim sucessivamente. O tempo que o pesquisador irá passar no pós-doutorado depende muito de seus objetivos pessoais. Por que? Porque no pós-doutorado ele irá se dedicar somente a sua pesquisa, e esse pode ser seu objetivo no momento. Em geral, no entanto, o pesquisador busca conseguir uma posição de professor. Afinal, o salário inicial bruto do professor universitário está hoje na faixa dos R$ 10.000, e possui todos os direitos de um trabalhador. Como professor, o pesquisador poderá continuar com sua pesquisa, porém existe um porém.

A depender da universidade que o professor ingressar, a mesma pode não ter uma estrutura voltada para a pesquisa em sua área, apenas para ensino. É por isso que, muitas vezes, o pesquisador escolhe passar mais tempo como bolsista de pós-doutoramento, para construir um bom currículo e, então, poder concorrer a uma vaga em alguma universidade que tenha um centro de pesquisas em sua área. No exterior, é comum que o pesquisador passe em torno de cinco anos dedicados apenas a sua pesquisa, antes de buscar uma posição acadêmica.

Esperamos que este artigo tenha ajudado a elucidar algumas dúvidas sobre os direitos e deveres do pesquisador no Brasil, em especial em um momento de tamanha desinformação. Portanto, se você é jovem e deseja ser cientista, já sabe que terá muitos desafios pela frente, mas para quem ama a pesquisa, não serão encarados como obstáculos, apenas como etapas a serem ultrapassadas. Se você não deseja ser cientista, mas queria apenas entender melhor a carreira acadêmica, veja que os pesquisadores precisam passar por vários processos seletivos ao longo dos anos. Não é à toa que os índices de depressão e ansiedade, entre os alunos de doutoramento, são bem mais altos que a média da população. Cobrança por resultados imediatos e indefinições sobre seu futuro rondam cada passo da carreira científica. É um longo caminho, mas um caminho que pode ser bastante gratificante.


Imagem principal: pixabay, usuario oliviahelenmary, CC0.

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

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