Festas de fim de ano? Cuidado com as tentações.

Todo mundo conhece o jogador Romário e muita gente se espantou no ano passado quando ele apareceu na mídia muito magro e, aparentemente, abatido. Ele havia passado, naquele momento, por uma cirurgia de intestino, parecida com as cirurgias bariátricas para o controle de peso. A diferença é que Romário nunca foi gordo. O que ele queria controlar não era o peso, mas a diabetes. A razão? Apesar de controlável, a diabetes é uma doença que resulta em uma vida mais rígida e sem muitos doces. Como diabético, você praticamente não pode comer açúcar.

O caso é que a cirurgia que Romário passou ainda é considerada experimental, e de risco. Por que, então, se submeter a ela? É preciso gostar muito de comer doces, talvez? Eu não sei quanto a vocês, mas eu gosto de doces. Na verdade, eu sei quanto a vocês. Vocês também gostam de doces. E sal. E gordura, certamente. Não é a toa que dizem que tudo que é bom é ilegal ou faz mal. Afinal, uma vida regrada a doces, sal e gordura é como um ticket expresso para uma vida curta.

Se faz tanto mal, por que adoramos doces, sal e gordura? A psicologia evolutiva tem uma resposta bem simples. Nossa mente se desenvolveu em uma época bem diferente da nossa, onde doces, sal e gordura não eram fáceis de serem encontrados. Não havia padarias naquela época. Na verdade, não havia muita coisa além de animais selvagens, pessoas selvagens e abrigos seguros. Para comer, alguém precisava caçar ou colher. Era a época dos caçadores-colhetores. Então, vamos imaginar quem viveria mais naquela época.

Primeira opção, um cérebro que não gostasse tanto assim de gordura, sal e açúcar. Esse cérebro por acaso encontrava uma árvore com muitos frutos, mandava o corpo comer um pouco e, saciado, dizia para o corpo: Está bem, você já comeu o suficiente para as próximas horas, pode ir pra casa. Algumas horas depois, a pessoa já estava com fome de novo, e tinha que sair novamente para procurar comida. Então vinha um tigre faminto e ele virava a comida do tigre. Não era muito prático.

Segunda opção, um cérebro que gostasse bastante de gordura, sal e açúcar. Esse cérebro por acaso encontrava uma árvore com muitos frutos. O que ele fazia? Ele mandava a seguinte mensagem para o corpo: Açúcar! Coma tudo o que puder e um pouco mais, porque é muito bom, isso, coma mais, mais um pouco, ainda dá, tem espaço aí no estomago que eu sei, ainda não tá explodindo, vai, só mais uma frutinha! Então essa pessoa podia voltar para a caverna, deitar e dormir por alguns dias antes de ter de sair de novo para buscar comida. Certamente essa pessoa viveria mais do que a primeira opção. E, se vivesse mais, teria mais tempo para ter mais filhos e passar seus genes adiante, tudo o que a seleção natural mais gosta.

Acontece que faz pouco tempo que temos doce, sal e gordura a vontade no ambiente. É muito fácil conseguir isso, e ainda temos o mesmo cérebro da época dos caçadores-coletores. O cérebro ainda não entendeu direito que não há mais tigres a solta, e que não é mais preciso comer tudo o que cabe no estômago e um pouco mais. É por isso que gostamos tanto de doces. É por isso que muitas vezes arriscamos nossas vidas por causa de doces, sal ou gordura. Hoje sabemos que comer muito disso faz mal, mas comemos mesmo assim!

Mas… somos seres racionais, não? Nós podemos escolher não comer tanto sal, e muitos fazem essa escolha. Nos controlamos não porque não queremos o sal, mas porque sabemos que ele faz mal, e por isso não devemos comer. É uma luta entre nosso lado mais racional e nosso lado mais instintivo, por assim dizer. Não é fácil resistir as delícias das festas de fim de ano, mas podemos fazer isso. Vivemos em um ambiente onde a pessoa já pode comer metade dos doces agora, e a outra metade mais tarde. Não há mais o risco de tigres. Talvez haja o risco de alguém comer os doces antes de você, mas isso já é outra história.


Imagem: George Desipris, Pexels.

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

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