Eu & meu outro Eu. O Cérebro dividido.

Cérebro dividido

Quando ainda morava com meus pais, eu tinha o costume de dormir tarde e acordar tarde. Ficava acordado até umas duas da madrugada, quando enfim pegava no sono. Já minha mãe dormia cedo e tinha uma mania engraçada. Ela acordava em algum momento para ir ao banheiro, e esse algum momento podia ser entre dez da noite e duas da manhã. Independentemente do horário que acordava, ela passava em meu quarto no caminho do banheiro e dizia que eu já devia estar dormindo, porque já era duas da manhã. Porém ela não parava para olhar o relógio no caminho. Podia ser onze horas que ainda assim ela dizia que eu já devia ter ido dormir, porque já era duas da manhã.

Com o tempo eu fui notando que mamãe sempre tinha uma história para tudo. As vezes contava a mesma história diversas vezes, sempre mudando algum detalhe. Porque ela esquecia do detalhe, mas não tinha problema. Se na primeira vez era uma tragédia com quinze mortos, na segunda vez seriam vinte mortos e, na terceira, apenas dez mortos. Não importava muito. O importante era o panorama geral. Ou ter uma história. Se eu dizia que algo mudara desde a última vez, ela negava. A história, para ela, sempre fora a mesma.

Turrona? Um pouco. Mas nada mais representativo da forma como o cérebro pensa. Porque ele prefere ter certezas do que ter dúvidas. Ou melhor, o cérebro precisa de uma lógica. Se não há, ele constrói uma e acredita nela. Imagine só se ficássemos a remoer com profundidade tudo aquilo que achamos que sabemos. Não, não, de forma alguma. O cérebro precisa de mais certezas do que de dúvidas. A seleção natural exigiu que ele se comunicasse, não que ele ficasse se remoendo com detalhes sem importância.

Como sabemos disso? Um estudo, então, dos mais impressionantes que podemos fazer, realizado com pessoas cujo cérebro foi dividido. Dividido?! Sim. Nosso cérebro possui dois hemisférios, direito e esquerdo, e eles se encontram conectados por uma região chamada corpo caloso. Algumas vezes, devido a doenças ou lesões, o paciente tem essa região seccionada e seus hemisférios deixam de se conectar. Terrível, não? De alguma forma. Mas o surpreendente é que, apesar de tamanha lesão, as pessoas acordavam no outro dia como se nada tivesse acontecido! Alguma diferença? Nenhuma. O paciente se parecerá exatamente o mesmo do dia anterior.

Experiência do cérebro dividido. A imagem de uma figura geométrica é exibida apenas para o olho esquerdo, alcançando apenas o hemisfério direito. O paciente não é capaz de dizer o que está vendo, mas sua mão esquerda agarra o objeto correto. Imagem: Wikipedia Commons, domínio público.

Mas não é. Porque agora o cérebro está dividido e os hemisférios não podem mais se comunicar. Michael S. Gazzaniga e outros realizaram diversos estudos com pacientes com o cérebro dividido e encontraram fatos surpreendentes. Para entender melhor esses fatos, devemos saber que os olhos se conectam com os hemisférios cerebrais de forma cruzada. Ou seja, o que uma pessoa vê com o olho direito vai direto para o lado esquerdo do cérebro, e com o esquerdo, vai para o lado direito do cérebro.

Sabemos também que o lado esquerdo do cérebro é responsável pela fala e, de alguma forma, pelo que chamamos de consciência. Dessa forma, se o olho direito vê a imagem de um coelho, e perguntamos ao paciente o que ele está vendo, irá dizer: Um coelho! Bem simples. Porém se apenas o olho esquerdo vê o coelho e perguntamos ao paciente o que ele vê, ele irá responder: Eu não vejo nada! Nada! Mas na verdade ele está vendo o coelho. O que ocorre é que apenas o seu hemisfério direito vê o coelho, e não consegue avisar para o hemisfério esquerdo! Como sabemos que o cérebro de fato vê o coelho, se a pessoa diz que não vê nada? Basta dar papel e caneta para a mão esquerda e ela irá tentar desenhar… um coelho!

É como se o hemisfério direito quisesse informar que vê o coelho, mas como não pode pedir ajuda ao hemisfério esquerdo para dizer isso, ele desenha! Um tanto quanto bizarro. Mas o que isso tem a ver com as histórias da minha mãe? Voltemos e modifiquemos um pouco a experiência. Agora projetemos a seguinte ordem “levante-se” apenas para o olho esquerdo (ou seja, o hemisfério direito). Os cientistas fizeram isso e o que ocorreu foi que o paciente se levantou. Ele fez isso porque ele leu uma ordem e obedeceu, mas apenas o hemisfério direito sabia disso. Quando perguntado ao paciente o motivo dele ter se levantado, o paciente respondia algo como: “Estava com sede” ou “Eu preciso ir ao banheiro”.

O que isso quer dizer? Que o hemisfério esquerdo não sabia o motivo de ter se levantado. Não sabia que ele havia sido ordenado a se levantar. Mas o cérebro precisa de motivos, de razões, então teve que inventar suas próprias razões. Quando não sabemos a lógica por trás de nossas decisões, nós inventamos! Nosso cérebro “racional” precisa que as coisas façam sentido, que o mundo faça sentido, de outra forma é possível que ficaria louco. Duvidar do que sabemos não é o mais natural. Ao contrário, o mais natural é achar que sabemos das coisas. Mas será que sabemos mesmo? Será?


Imagem principal: Pixabay, CC0.

Author: João Paulo Morais

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