Sartre e o anti-humanismo. Uma nota.

Foto de Jean-Paul Sartre

Poucos filósofos são tão conhecidos como Jean-Paul Sartre, ainda que a maioria das pessoas que o citem nunca o tenha lido. Autor de frases chamativas como “o inferno são os outros” ou “a existência precede a essência”, quem foi esse escritor e filósofo francês, tão polêmico enquanto vivo e o esquecido atualmente, enquanto morto?

Para situar o homem Sartre, nasceu em 1905 e morreu em 1980, ou seja, é um homem do século XX, porém ainda com a bagagem do século XIX. Porque, se não viveu o século anterior ao seu nascimento, ao menos viveu ainda os resquícios de sua cultura de progresso e humanismo. Passou pela primeira grande guerra enquanto garoto e foi enviado para a segunda como soldado, tendo sido capturado, preso e libertado.

O tempo passado no campo de prisioneiros é fundamental para uma reviravolta em sua vida. É comum que os estudiosos falem em dois Jean-Paul. O de antes da guerra e o depois da guerra. Não só em sua vida mas também em sua obra há uma grande ruptura entre essas duas fases. Primeiro há o Sartre existencialista, anti-humanista e libertário, autor do fenômeno literário A náusea e do clássico O ser e o nada. Após a guerra, há o Sartre marxista e defensor de ditaduras comunistas, primeiro a soviética e posteriormente a chinesa. Foi depois da guerra que Sartre declarou que “o existencialismo é um humanismo”.

Mas o que é o humanismo, e por que a filosofia do século XX foi, em grande parte, anti-humanista? Não parece uma palavra boa, certo? Anti-humanismo parece uma coisa ruim, mas não necessariamente é uma coisa ruim. O anti-humanismo é na verdade uma reação política e filosófica contra os discursos históricos e totalitários do século XIX. Discursos esses que pregavam que o Homem possui uma essência, um final histórico, uma meta a ser atingida. Escrevo o Homem com letra maiúscula para indicar que se trata de um homem como conceito bem definido. Por exemplo, dizer que o Homem é naturalmente bom, ou moral, ou comunitário por natureza, e que é a sociedade que o torna mal, é um discurso humanista, porque define uma essência para o homem.

Isso é ruim? O século XX nos provou que pode ser. Todos os movimentos totalitários do século XX partiram de algum pressuposto sobre o que o Homem deve ser. Para os nazistas, o Homem deveria ser ariano, forte, etc. Para os comunistas, o Homem deveria ser comunitário, natural, etc. A filosofia anti-humanista vinha no contrário desse pensamento e pretendia que o Homem não existia, mas sim apenas homens. Ou seja, que não há um conceito pré-definido de Homem, e que cada um se faz a sua forma. Qualquer tipo de filosofia ou política que nos dizia como deveríamos ser era um governo totalitário em potencial.

Esse foi o jovem Sartre, aquele que dizia que a existência precede a essência, ou seja, que somos apenas o que escolhemos ser. Mas o segundo Sartre se redescobre, muda, torna-se um humanista. A partir de sua experiência no campo de prisioneiros, o existencialismo agora seria um humanismo, e haveria sim uma essência para o Homem que deveria ser alcançada. E essa essência seria comunitária, e somente poderia ser alcançada com a ajuda do partido comunista. Um outro Sartre, então. Um Sartre completamente diferente do jovem Sartre.

Sartre estava errado? A maioria dos historiadores de hoje diria que sim. Na época de sua morte, em 1980, ninguém mais acreditava em Jean-Paul Sartre. Seu apoio a governos totalitários só encontrava ressonância em uns poucos grupos, e filosoficamente ele já parecia não ter mais relevância. Se na década de cinquenta Sartre estava para a filosofia o que Einstein estava pra física e representava o perfil do intelectual engajado, na década de sua morte ele parecia mais uma mera curiosidade histórica a qual ninguém mais dava ouvidos.

Ironicamente, enquanto Sartre se tornava um humanista, era o anti-humanismo que crescia nas escolas filosóficas. Enquanto Sartre se tornava o velho Sartre, eram as ideias do jovem Sartre que mais ressoavam: Fora todas as ideias pré-concebidas de Homem! Fora todos os governos autoritários! Somos livres para construir nosso próprio futuro, completamente livres. Foi com esses gritos que o século XX apagou suas luzes.

E o século XXI? Com o tempo, o anti-humanismo começou a perder seus efeitos. Afinal, não nascemos para ser completamente livres, de outra forma as sociedades pre-democráticas seriam o paraíso na terra. Sem leis, sem regras, todos viveriam em harmonia? Não é o que a antropologia nos mostra. Não é também a completa falta de um propósito, ou uma essência, que nos torna melhores. Jogados a própria sorte, não nos entendemos. O anti-humanismo, tão em voga nas últimas décadas, nos livrou de totalitarismo, mas não resolveu os problemas da sociedade.

Aos poucos o anti-humanismo dá mais uma volta no que seria um novo humanismo. Tanto a esquerda quanto a direita recaem novamente na necessidade de uma essência para o homem. Se a esquerda tem no seu politicamente correto as bases para um politicamente correto extremado (ou você age como mandamos ou você é um racista/fascista/etc), a direita tem nos seus conceitos semi-divinos a base do seu totalitarismo religioso (você precisa ser assim ou assado porque Deus mandou que assim seja e é assim que tem que ser).

Nesses momentos é bom sentar um pouco e ler o jovem Sartre, aquele que negava qualquer essência, para quem o mais importante é a existência. Porque, se a história nos obriga sempre a viver entre o humanismo e o anti-humanismo, deve haver um meio termo, que pense que precisamos sim de propósitos para nos unir, mas que não podemos deixar que esses propósitos nos oprimam. Essa filosofia existe, mas certamente é mais confusa, menos óbvia, do que aquelas filosofias que são gritadas em nossos ouvidos: Você deve, você precisa, você tem de ser assim!

Que não obedeçamos quem nos ordena, então. É difícil, mas que não obedeçamos.

Author: João Paulo Morais

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