Geração superficial. O que a internet está fazendo com nossos cérebros.

Nicholas G. Carr é um escritor norte-americano, especializado em escrever sobre tecnologia. Em 2010, ele lançou seu livro mais polêmico, lançado no Brasil como A Geração Superficial: O que a internet está fazendo com nossos cérebros (no original The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains). A ideia de Carr é baseada no conceito de neuroplasticidade e foi muito influenciada pelos estudos do filósofo canadense Marshall Mcluhan. Para entendermos o que Carr tem em mente, é preciso que entendamos antes tanto o conceito de neuroplasticidade como um pouco da principal ideia de Mcluhan, que culminou na sua famosa sentença de que a mensagem é o meio.

Neuroplasticidade é a habilidade do nosso cérebro de se modificar a depender do comportamento atual do indivíduo. Talvez essa ideia fique melhor explicada por alguns exemplos. Um estudo mostrou que taxistas londrinos tem mais desenvolvida a região cerebral que controla nossas projeções tridimensionais do que pessoas que não são taxistas londrinos. Por que isso? Porque taxistas londrinos precisam ter uma imagem clara do mapa das ruas de Londres em sua cabeça, e por isso a região do cérebro que cria tais mapas da cidade está em constante uso, logo, o cérebro aloca mais espaço para elas. Ao se aposentarem, eles não precisam mais ter esse mapa na cabeça, e o cérebro começa a alocar menos espaço para ela, diminuindo assim a região cerebral ocupada com essa tarefa.

Outro exemplo simples ocorre quando as pessoas perdem o sentido da visão, por algum acidente ou doença. A área do cérebro antes utilizada pela visão passa a ser utilizada para outras funções, como a audição ou tato, por exemplo, porque a partir de então a pessoa irá utilizar muito mais a audição e a tato, e tais sentidos se desenvolvem mais. Ou seja, tudo aquilo que utilizamos dia após dia tende a utilizar mais recursos do cérebro, e logo nos tornamos melhor nestas tarefas.

A geração superficial. O que a internet está fazendo com os nossos cérebros. Nicholas Carr. Editora Agir, 2011. 384p.

A premissa de Carr é que o nosso cérebro está sendo moldado pelos hábitos que estamos adquirindo na internet, o que é uma verdade independentemente de suas conclusões. Sua originalidade ocorre quando ele utiliza as ideias de Mcluhan para estudar quais são as consequências desta mudança. No caso do filósofo canadense, ele estava preocupado em como os novos meios de comunicação de sua época estavam a interferir na sociedade, mais especificamente com o aparecimento da televisão em meados do século. Se a televisão parece ter mudado completamente o modo comportamental do ser-humano, o que a internet não estaria fazendo conosco?

Para Mcluhan, o meio onde a mensagem é transportada é tão importante quanto a mensagem, e deve ser levado em conta. Muitas vezes o meio é a própria mensagem, porque o conteúdo passa a importar pouco em relação ao meio. Ou, como dizemos hoje, muitas vezes é a embalagem que importa, e não o conteúdo. Para entender isso, vejamos como nos comportamos atualmente. A maioria das pessoas hoje se informa utilizando a internet, em geral uma rede social, como o Facebook, Instagram ou mesmo WhatsApp. Quantas pessoas realmente leem o que está sendo compartilhado? O ato de compartilhar, em si, muitas vezes tem mais peso na mensagem do que o próprio conteúdo, que muitas vezes nem é de conhecimento daquele que compartilha.

Para Carr, o comportamento que temos na internet está alterando o nosso cérebro, via a neuroplasticidade, e logo o nosso comportamento. Se antes nos informávamos acerca do mundo através de jornais, hoje as pessoas não conseguem mais se concentrar para ler textos longos, preferindo os textos curtos das redes sociais. Além disso, nos desacostumamos a fazer uma coisa de cada vez, enquanto estamos ficando cada vez melhores em fazer diversas coisas ao mesmo tempo, como ler um pequeno texto na rede social, responder um e-mail, escrever uma mensagem, etc. Tudo isso está fazendo com que nosso cérebro fique muito bom na realização de tarefas simultâneas, porém muito ruim na arte de concentração.

Carr não expõe estatísticas precisas sobre tal determinado comportamento, porém suas premissas parecem atuais e suas conclusões aceitáveis, além de deixar uma séria pergunta em aberto: Será que ficaremos cada vez menos propensos a sentar e ler um bom livro, como costumávamos fazer, enquanto cada vez mais propensos a viver uma vida multitarefas, sem a devida concentração. Até chegar nessa pergunta, o autor nos leva a uma viagem pelo mundo da comunicação, desde os escribas da idade média até o uso da internet, passando pela invenção da prensa por Gutenberg. É uma leitura certamente proveitosa.

Author: João Paulo Morais

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