Os primeiros filósofos na Grécia antiga.

A ciência e a filosofia, como a conhecemos, tem seu berço na Grécia antiga, por volta do século VI antes de Cristo. Isto não quer dizer que outras civilizações não tenham, antes dos gregos, desenvolvido algum resquício do que podemos considerar como uma ciência. Os egípcios e os babilônios, por exemplo, já tentavam fazer precisas observações do céu, porém tais observações tinham um objeto pragmático, como a previsão de estações. O mesmo se pode dizer da matemática. Antes dos gregos, outras civilizações já resolviam problemas como o de equações de primeiro grau, porém sempre com algum objeto prático em mente, como a contabilidade e o inventário. A matemática apenas pela matemática, como uma aventura do pensamento, começou na Grécia, assim como a filosofia.

Por que a Grécia e não outra civilização? Não é uma pergunta fácil de ser respondida, porém há algum consenso que a resposta está tanto na estrutura político-econômica da região quanto na questão religiosa. Vale saliente que os primeiros filósofos, por exemplo, surgiram não nas cidades-mães da Grécia antiga, como Atenas ou Esparta, mas nas colônias, onde não havia um poder central controlador. Aquele que é conhecido como o primeiro filósofo, Tales, nasceu em Mileto, uma colônia grega situada no que é hoje o oeste da Turquia. Mileto era uma cidade localizada longe do poder central grego, e vivia basicamente do comércio, o que a tornava uma região próspera e um ambiente livre de grandes controles e opressões. Apesar de ameaçada por tiranos, boa parte da história grega foi marcada pela manutenção da democracia, o que dificultava um controle mais rígido da sociedade por algum poder dominante.

Tales de Mileto, considerado o primeiro filósofo. Imagem: Wikipedia

Outro aspecto a ser considerado é o religioso. Ao contrário de outras civilizações, como a egípcia, na Grécia não havia um cânone religioso bem definido. É certo que havia uma infinidade de deuses e semi-deuses na religião popular, porém a civilização grega nunca possuiu um livro sagrado como os judeus, católicos, muçulmanos ou hindus, nem chefes religiosos com poderes divinos, como os egípcios. Antes mesmo do surgimento da filosofia, religiões pessoais já se espalhavam pela região, como o orfismo, um culto pessoal que acreditava que a alma era uma divindade condenada a viver em um corpo humano até conseguir libertar-se, através de uma vida ética. Desta forma, o surgimento de novas crenças e ideias que contrariassem a religião “oficial” dos deuses gregos não estava automaticamente sujeita a punição e controle por qualquer órgão político-religioso.

Neste clima de liberdade, a filosofia pode surgir. Como já dito, aquele que é conhecido como o primeiro filósofo foi Tales, e é com Tales que começa o naturalismo, movimento filosófico assim chamado porque procurava compreender a essência de todas as coisas através de algum princípio natural. Para Tales, o princípio seria a água, ou melhor, o húmido, e acredita-se que Tales chegou a esta conclusão por perceber que em tudo encontra-se vestígios de humidade. No ser humano, nos animais, nas plantas, nos frutos, etc. Portanto, para Tales, a essência de todas as coisas seria a água.

Mas essa não seria apenas uma ideia especulativa? Qual a sua originalidade? Certamente foi uma ideia especulativa, mas era uma ideia especulativa da razão. Ou seja, Tales usou apenas observações do mundo e seu raciocínio lógico para concluir algo acerca da natureza e do cosmos. Até o momento, os fenômenos naturais eram explicados através de manifestações divinas. Se havia um raio, fora lançado por Zeus, por exemplo. Eram explicações baseadas em lendas ou na sabedoria popular. A exata diferença é que os filósofos procuravam se valer apenas da razão para examinar o mundo. O que não quer dizer que fossem ateus, no sentido atual da palavra. Ao contrário, é atribuído a Tales a afirmação que tudo está cheio de deuses, porque os deuses permeavam o mundo.

Após Tales, outros filósofos naturalistas indicaram outras substâncias primordiais como a essência primeira de todas as coisas. Anaximandro, por exemplo, discípulo de Tales, achava que essa substância primordial não poderia ser uma substância física, porque deveria ser algo infinito e ilimitado. Para ele, a substância primordial seria o ápeiron, um tipo de matéria que nunca surgira nem deixaria um dia de ser. A palavra ápeiron significa “sem limites”, e não teríamos acesso direito a ela. Para Anaxímenes, também de Mileto, a substância primordial seria o ar, porque o ar poderia ser comprimido para formar a água e a terra, ou então diluído, para formar o fogo. Tais quatro elementos (ar, água, terra e fogo) formavam uma espécie de tabela periódica dos elementos da época.

Muito mais importante que os detalhes de tais especulações filosóficas é o fato de que ali começava uma aventura do conhecimento, que iria perdurar até os dias atuais. Hoje sabemos que nem a água nem o ar são substâncias primordiais, porém continuamos buscando por alguma substância na qual todas as outras podem ser derivadas. Também devemos aos primeiros filósofos a crença de que a razão sozinha poderia compreender as verdades naturais, sem a necessidade de recorrer aos livros sagrados. Essa descoberta não é óbvia, porque ao longo dos séculos muitas vezes a liberdade da razão foi novamente negada pelas autoridades, e tivemos então de redescobrir, por si só, o sonho da razão.


Imagem principal: A escola de Atenas, afresco de Rafael, localizado na cidade do Vaticano.

Author: João Paulo Morais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *