A ciência é altamente imaginativa. Por que isso é tratado como um segredo?

Swans (1956) por Maurits Cornelis Escher

Por Tom McLeish

Meu último livro, The Poetry and Music of Science (2019), começa com minhas experiências de visitar escolas e trabalhar com alunos do ensino médio, nas aulas de estudos gerais. Esses alunos, com idades entre 17 e 18 anos, me diziam que simplesmente não viam na ciência espaço para imaginação ou criatividade. Não apenas em uma ocasião, mas repetidamente, ouvi isso de jovens que eram brilhantes o suficientes para terem sucesso em qualquer assunto para o qual se dedicassem.

No entanto, não é preciso ser Albert Einstein para observar que, sem o primeiro passo essencial, sem uma reimaginação criativa da natureza, uma concepção de hipóteses para o que pode estar acontecendo por trás da superfície percebida dos fenômenos, não pode haver ciência alguma. Einstein, é claro, tinha algo a dizer sobre o assunto. Como ele disse a um entrevistador em 1929:

Sou artista suficiente para atrair livremente minha imaginação. Imaginação é mais importante que conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação circunda o mundo.

Todo cientista sabe disso, mas durante dois séculos silenciaram sobre o assunto, preferindo uma narrativa mais segura sobre o ‘método empírico’ ou ‘a lógica da descoberta científica’. A educação científica favorece a apresentação de resultados e o foco no conhecimento, em vez das histórias maravilhas, imaginação, idéias fracassadas e aqueles momentos gloriosos e surpreendentes de iluminação que passam pela vida de todos os que realmente fazem ciência. Nossa mídia transmite a mesma mensagem. nunca esquecerei o documentário da BBC sobre ciência da computação, no qual o apresentador garantiu aos espectadores, frente a câmera, que não há espaço para imaginação na ciência. Não admira que meus jovens colegas tenham ficado desiludidos.

Se os cientistas são um pouco tímidos sobre suas experiências com a imaginação, então os artistas, escritores e compositores com quem eu falei precisam da mesma paciência (e da mesma forma, uma bebida ocasional) para atraí-los à necessidade constante de experimentar. Raspar a tinta da tela, reescrever o romance pela décima vez, resgatar o material musical temático é – como todo artista sabe – a conseqüência das restrições que a criatividade inesperadamente encontra. O artista também faz hipóteses sobre como seu material, seja palavras ou sons, atingirão o objetivo proposto, ainda que indistintamente concebido. O nascimento ao mesmo tempo do romance inglês e do método experimental na ciência não foi mera coincidência. Sem fazer a afirmação ingênua de que arte e ciência estão de alguma forma ‘fazendo a mesma coisa’, as semelhanças narrativas na experiência daqueles que trabalham com elas são notáveis. Elas precisam ser extraídas lá do fundo, porque ficam obscurecidas tanto por cientistas que não falam sobre imaginação quanto por artistas que não falam sobre experimentos.

O projeto de escutar qualquer um que cria – seja música ou matemática, tinta a óleo ou teoria quântica, e o poder criativo das restrições que encontram – se tornou meu projeto para um livro. No entanto, em uma estranha obediência a um certo padrão de seu material, a trama originalmente imaginada de The Poetry and Music of Science recusava-se a engatar. Os catálogos justapostos de criação de histórias, seja em ciências ou arte, seguidos por um extenso ensaio de “contrastar e comparação”, cada vez mais falhavam em fazer justiça ao material. Fontes históricas e contemporâneas contavam uma história muito diferente sobre a imaginação criativa, uma que não se dividia entre linhas desgastadas de “As Duas Culturas”. Em vez disso, um padrão de três “modos” de expressão criativa parecia mais fiel.

O primeiro modo, de imaginação visual, é obviamente a principal fonte para o artista, mas o mesmo se aplica a muitos cientistas, desde biólogos moleculares até astrofísicos. A astronomia é a provedora original da perspectiva projetiva. Se for pedido ao observador de uma pintura que recrie um mundo tridimensional a partir de uma representação ou impressão em uma tela bidimensional, a tarefa de “ver” o Universo a partir da imagem que chamamos de céu tem uma clara semelhança estrutural.

Um segundo modo é o textual e linguístico. O emaranhamento entre a ciência e a palavra escrita em prosa ou poesia pode possuir um certo nó com o nascimento do romance, como já observamos, mas sua história é muito mais longa. Ele também tem uma “história alternativa”, prevista pelo poeta William Wordsworth em seu prefácio às Baladas Líricas (1798) – e certamente por Johann Wolfgang von Goethe e Alexander von Humboldt antes dele – nos quais:

As mais remotas descobertas do químico, do botânico ou do mineralogista, serão objetos próprios da arte ao poeta como qualquer outro que já pode ser empregado, se chegar o momento em que essas coisas nos sejam familiares.

Com exceções notáveis ​​(como R. S. Thomas e, ocasionalmente, WB Yeats na poesia, e a sempre presente vibração das amadas borboletas de Vladimir Nabokov, arrematada de seu trabalho científico para seus romances), essa precoce visão romântica infelizmente ainda não foi preenchida, e é certamente frustrada pela apresentação extremamente dissecada da ciência com a qual somos apresentados.

O terceiro modo de imaginação aparece quando tanto as figuras quanto as palavras desaparecem. Pois lá, quando poderíamos esperar um vácuo criativo, encontramos as maravilhosas e misteriosas abstrações da música e da matemática. Esse espaço compartilhado é certamente o motivo pelo qual esses dois têm algo em comum – certamente não é seu compartilhamento superficial da uma estrutura numérica que liga a melodia e a harmonia à estrutura matemática, mas suas formas representacionais em universos inteiros de nossa criação mental.

Quando uma jornada leva a um lugar tão reflexivo como esse, é apenas um pequeno passo para o reconhecimento da necessidade de um pensamento interdisciplinar. A antropologia e a neurociência cognitiva da criatividade são fascinantes, uma delas levando-nos às ferramentas primitivas de nossos distantes ancestrais lá no início da humanidade, a outra ao delicado equilíbrio entre o analítico hemisfério esquerdo de nossos cérebros e o direito integrador. A tradição filosófica é igualmente rica, descobrindo, por exemplo, a suspeita de Emmanuel Levinas acerca do modo visual para seu distanciamento implícito, preferindo o vocal ou o auditivo por sua imersão do sujeito no objeto. A tradição fenomenológica, de Martin Heidegger e Maurice Merleau-Ponty até Hannah Arendt, fala de um modo relacional entre o humano e o não humano que coloca tanto arte quanto ciência para descrever a natureza como se esta fosse o produto da imaginação humana. Como escreveu o crítico literário George Steiner em Real Presences (1989):

Somente a parte pode contribuir para tornar acessível, despertar alguma medida de comunicabilidade, a pura desumanidade da matéria…

Eu poderia dizer exatamente o mesmo da ciência. Então, como uma apreciação mais rica do serviço prestado pela imaginação criativa na ciência pode ser desenvolvida de uma maneira prática? Existem consequências tanto para os cientistas que a praticam, quanto para a comunidade em geral.

Refletindo sobre minha própria formação como físico profissional, não consigo me lembrar de uma única hora gasta durante meu treinamento, de doutorado ou pós-doutorado, em um aspecto tão instrumental da criatividade quanto a discussão de práticas de trabalho ou estilos, de modos que possam melhorar o fluxo criativo das idéias científicas. No entanto, há muito a ser dito: o envolvimento regular com o visual e o auditivo, a alternância de foco mental agudo e desfocagem integrativa, a permissão para períodos de descanso trabalhando em um único problema – tudo isso vale a pena ser conversado no início de uma carreira científica.

Mais amplamente, o bem contemplativo da ciência leiga, o engajamento com a redação científica de alta qualidade, incluindo as poéticas ‘notáveis ​​exceções’ – O livro Faber of Science de John Carey é um bom começo (1995) – reconhecendo que a ciência tem um profundo lugar estrutural na cultura humana tanto quanto a arte, apenas nos enriquecerá. Ao explorar outros caminhos para a ciência além do formalmente educativo – sua história e filosofia, suas idéias profundas e uma redescoberta da alegria trazida por observações agudas da natureza – mais pessoas podem descobrir que a noção de que ‘ciência não é para mim’, muitas vezes adquiridas no início da vida, é simplesmente um engano cruel.


Tom McLeish é professor de filosofia natural no Departamento de Física da Universidade de York, no Reino Unido. Ele é o autor de Faith and Wisdom in Science (2014), Let There Be Science (2016) e The Poetry and Music of Science (2019).

Tradução: João Paulo Morais.

Texto original publicado em aeon.co, com licença de tradução e redistribuição. Para maiores informações sobre direitos autorais do texto original, aeon.co/republish.

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Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

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