Xenofóbico em um momento, tolerante no próximo: os humanos são primatas estranhos

por Christian Jarrett

Seja quando eles propõem construir um muro ou sair de uma coalizão internacional, os políticos populistas gostam de se portarem como aqueles que mantem os “forasteiros” à distância, e isso claramente soa bem com a população. Para entender esse fenômeno, os psicólogos evolucionistas e sociais ofereceram uma explicação simples. Dizem que os seres humanos têm uma profunda tendência a desconfiar ‘do outro’ – pessoas que não pertencem à nossa comunidade ou grupo.

Um clássico trabalho publicado em 1970 pelo psicólogo polonês Henri Tajfel mostrou como os adolescentes formam, de maneira rápida e arbitrária, um senso de lealdade ao seu próprio grupo, e um viés contra o grupo externo, mesmo quando a participação no grupo não se baseia em nada além da preferência por um artista ou outro. Mais recentemente, pesquisas mostram como mesmo crianças em idade pré-escolar preferem brincar com crianças de sua própria etnia ou com aquelas que falam o mesmo idioma que elas.

Uma hipótese evolutiva para nossa tendência à lealdade entre grupos é que este comportamento teria sido vantajoso para nossos ancestrais caçadores-coletores, em sua competição com tribos rivais (grupos com membros mais leais e dedicados teriam mais chances de sobreviver e se reproduzir). O comportamento guerreiro observado em nossos primos chimpanzés, que formam coalizões para roubar o território de grupos rivais, é citado como uma evidência que apóia essa teoria.

Último livro publicado pelo autor, Great Myths of the Brain. Ed Wiley.

No entanto, a comparação com os chimpanzés pode não ser a mais adequada para a compreensão dos seres humanos, e há uma perspectiva mais otimista sobre o comportamento intergrupal humano, uma que foi amplamente negligenciado pelos cientistas até o momento. Em uma edição recente da revista Evolutionary Anthropology, Anne Pisor, da Universidade Estadual de Washington, e Martin Surbeck, da Universidade de Harvard, explicam que, entre os primatas, os seres humanos são “atípicos”. Temos uma abordagem altamente flexível para forasteiros: somos capazes de ser altamente tolerantes – encontrar e lidar com forasteiros ou “membros externos ao grupo” sem recorrer à violência – como também de sermos agressivos. Como isso se encaixa na nossa imagem de que os homininos encontram-se constantemente em guerra em nossa história evolutiva?

Como muitas sociedades animais, incluindo várias espécies de primatas e também golfinhos e elefantes, nós, seres humanos, vivemos em um tipo de sociedade conhecida como de “fusão-fissão” – nossas lealdades são flexíveis; há uma fluidez no tamanho dos grupos em que nos unimos; e os limites entre nossos grupos ou tribos são mal definidos, e dependem das circunstâncias. Por exemplo, quando a comida é abundante, os membros individuais das sociedades do tipo fusão-fissão dissolvem temporariamente seus grupos menores e se misturam em massa. Por outro lado, quando a comida é escassa, os indivíduos se dividem em grupos rivais para procurar comida em diferentes locais. A mistura pacífica também pode ocorrer em outras circunstâncias, como quando indivíduos de um grupo partem em missões de reconhecimento, para observar onde outros grupos estão encontrando seus prêmios. E, em busca de oportunidades de acasalamento, indivíduos de um grupo podem transferir-se para um grupo diferente – um processo que pode ter sido precedido por misturas anteriores.

Essas tendências sociáveis ​​e voltadas para o exterior, que nos permitem sermos flexíveis de acordo com as circunstâncias, fazem tanto parte de nossa natureza evolutiva quanto nossa tendência à lealdade e belicosidades tribais. Imagine agora um parque lotado, em Londres, no meio do verão. Banhistas, leitores, jogadores de futebol, carrinhos de bebê e amantes de piquenique unidos no prazer humano de compartilhar de um pouco de calor. Como a luz do sol, pode não durar tanto tempo (é um recurso abundante, porém sazonal), mas, pelo menos momentaneamente, há um clima comunitário no ar. Os limites do parque nos aproximam fisicamente uns dos outros, além do que costumamos achar confortável, mas não nos importamos com isso – é da nossa natureza como uma espécie de fusão-fissão desfrutar, ou pelo menos tolerar, esses momentos juntos.

De fato, Pisor e Surbeck acreditam que evoluímos para sermos excepcionalmente tolerantes entre os tipos de as espécies que formam sociedades de fusão-fissão, e que as raízes disso estão, em parte, em nossos cérebros incomumente grandes e nossas taxas reprodutivas relativamente altas, em comparação com outros primatas. Juntas, essas características nos tornam extremamente dependentes de alimentos e ferramentas de alta qualidade e alto risco (isto é, imprevisíveis no tempo e no espaço). Por sua vez, isso terá implicações em nossas estratégias de agrupamento, incluindo a frequente necessidade de confiar em outras comunidades durante os períodos de escassez de recursos. “Isso não significa que os seres humanos estavam ou são pacíficos o tempo todo”, disse-me Pisor. “Mas onde e quando o acesso a recursos não-locais é importante, os humanos geralmente conseguem encontrar maneiras de serem tolerantes com os membros de outras comunidades, pelo menos uma parte do tempo”.

Enquanto os estudiosos anteriormente se concentraram nos chimpanzés como uma maneira de obter, através de uma visão evolucionária, as origens de nossas tendências agressivas, Pisor e Surbeck acreditam que comparações com outros primatas mais tolerantes podem ser mais apropriadas, especialmente para entender os fundamentos de nossa natureza tolerante.

Notavelmente, o compartilhamento e a preparação de alimentos foram observados entre os grupos bonobo, assim como a formação de coalizões intergrupos. “Os Bonobos nem sempre são tolerantes com os membros de outros grupos”, disse Pisor. “Durante os encontros entre grupos, geralmente há conflitos entre dois indivíduos, ou mesmo momentos de tensão que abalam muitos membros de ambos os grupos. Mas essa flexibilidade no comportamento intergrupo, essa forma de comportamento tolerante ou agressiva em relação aos membros do grupo externo, existe, parecido com a flexibilidade que vemos nos seres humanos.”

O sagui-imperador é uma espécie de sagui do gênero Saguinus, nomeado em homenagem ao imperador Guilherme II da Alemanha.

Outros primatas que exibem esse tipo de comportamento tolerante vantajoso (embora não no mesmo grau que os seres humanos) incluem os macacos sagui, que foram observados formando grupos de espécies mistas, aprendendo novas estratégias de “conexão com forasteiros” no processo; e babuínos, que se alimentam juntos (sem dividir grupos ou “bandas”) quando a comida é abundante, e também se juntam para formar enormes “tropas” para maior proteção à noite. Um grupo de humanos reunidos em um acampamento, cada um em sua tenda e sob o luar, não é tão diferente da cena de centenas de babuínos amontoados à beira do penhasco à noite. Assim como nossas tendências agressivas podem ter raízes evolutivas profundas que são aparentes no comportamento de certos primatas não-humanos, o mesmo acontece com nossos instintos de tolerância e coexistência pacífica.

Porém é menos reconhecido que, em circunstâncias mais pacíficas, são os cooperadores e diplomatas – aqueles que constroem alianças, não que as quebram – que gozam de alta estima

Também podemos ver traços dessa tolerância e cooperação, frutos da evolução, na maneira que valorizamos nossos líderes. Temos a tendência de atribuir alto status a indivíduos “bem conectados”, especialmente nos momentos em que os recursos necessários não estão disponíveis localmente – um fenômeno aparente nas sociedades tradicionais. Pisor e Surbeck apontam, por exemplo, para os estudos feitos na costa Salish (povos indígenas da costa noroeste do Pacífico), que no século XIX atribuíram alto status aos homens do vilarejo que tinham mais laços com outras comunidades. Tendemos a pensar nos guerreiros do sexo masculino como desfrutando de todo o poder e glória, o que pode ser verdade durante os períodos de guerra. Porém é menos reconhecido que, em circunstâncias mais pacíficas, são os cooperadores e diplomatas – aqueles que constroem alianças, não que as quebram – que gozam de alta estima. Há paralelos aqui com a distinção feita por psicólogos evolucionistas entre liderança baseada em prestígio e liderança orientada para domínio – a primeira baseada mais na capacidade de compartilhar habilidades e conhecimentos, a segunda na capacidade de governar pelo medo.

Pisor e Surbeck também argumentam que as instituições sociais (ou seja, as regras grupais que governam o comportamento social em relação aos forasteiros) surgiram na história humana para incentivar e aprimorar a cooperação intercomunitária durante os momentos em que a tolerância em relação aos forasteiros e o trato com eles é particularmente vantajoso. Por exemplo, membros de grupos que trapaceiam o grupo externo podem recebe sanções, caso seu comportamento possa pôr em risco os benefícios da cooperação entre os grupos. Isso está em desacordo com nossa visão convencional de lealdade entre grupos e hostilidade ao grupo externo: não é exagero ver essas dinâmicas se desenrolando na política contemporânea, com alguns divulgando seu desejo de punir proeminentes membros do próprio grupo que colocariam em risco o relacionamento com os grupos externos.

Desde a sombria avaliação de Thomas Hobbes, no século XVII, acerca do estado natural da humanidade, é moda em muitos setores destacar os lados mais sombrios da natureza humana. Como a historiadora Erika Lorraine Milam explicou em seu ensaio na revista Aeon, no ano passado, o problema de usar evidências de nosso longínquo passado para fazer reivindicações sobre a natureza humana é que é fácil demais escolher um retrato simplista e tendencioso. É verdade que nós, humanos, estamos inclinados a favorecer nossa ‘espécie’, e nossa reputação por atos de violência e ódio não é injustificada. No entanto, essa nova visão nos dá a oportunidade de lembrar que há outro aspecto igualmente importante em nossa natureza – nossa capacidade única de tolerância, não apenas para nosso próprio grupo, mas muito além dela.

Christian Jarrett é um neurocientista cognitivo por treinamento. Seus escritos foram publicados na BBC Future, WIRED e New York Magazine, entre outros. Seus livros incluem The Rough Guide to Psychology (2011) e Great Myths of the Brain (2014). Seu próximo livro, sobre mudanças de personalidade, será publicado em 2021.

Tradução: João Paulo Morais

Texto original publicado em aeon.co, com licença de tradução e redistribuição. Para maiores informações sobre direitos autorais do texto original, aeon.co/republish.

Imagem de capa: Utkarsh Singh, via http://unsplash.com

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

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