Para que a preguiça funcione para você, faça algum esforço.

por Neel Burton

Estamos sendo preguiçosos quando há algo que devemos fazer, mas estamos relutantes em fazer por causa do esforço envolvido. Fazemos mal, ou mudamos para uma tarefa menos árdua ou menos chata, ou apenas permanecemos ociosos. Em outras palavras, estamos sendo preguiçosos se nossa motivação de poupar esforços supera nossa motivação para fazer a coisa que devemos fazer, na maneira certa ou esperada. Assumindo, é claro, que sabemos qual é essa maneira.

Na tradição cristã, a preguiça é um dos sete pecados capitais, porque prejudica a sociedade e o plano de Deus, além de enviar um convite aos outros pecados. A Bíblia investe contra a preguiça, por exemplo, em Eclesiastes:

Com muita preguiça, o edifício se deteriora; e pela ociosidade das mãos a casa cai. Um banquete é feito para o riso, e o vinho alegra; mas o dinheiro responde a todas as coisas.

Hoje, a preguiça está tão intimamente ligada à pobreza e ao fracasso que sempre presumimos que a pessoa pobre é preguiçosa, não importa o quão dedicada ela seja no trabalho.

Mas pode ser que a preguiça esteja escrita em nossos genes. Nossos ancestrais nômades precisavam economizar energia para competir por escassos recursos, fugir de predadores e combater inimigos. Se esforçar em algo que não representa vantagem de curto prazo pode comprometer sua própria sobrevivência. De qualquer forma, na ausência de coisas como antibióticos, bancos, estradas ou refrigeração, fazia pouco sentido pensar no longo prazo. Hoje, a mera sobrevivência saiu de nossa agenda e é a visão e o compromisso de longo prazo que têm levado aos melhores resultados. No entanto, nosso instinto em conservar energia permanece, nos tornando avessos a projetos abstratos e com recompensas apenas distantes e incertas.

Ainda assim, poucas pessoas escolheriam ser preguiçosas. Muitas pessoas chamadas de ‘preguiçosas’ ainda não encontraram o que querem fazer ou, por um ou outro motivo, não conseguem. Para piorar a situação, o trabalho que paga suas contas e preenche seus melhores horários pode ter se tornado tão abstrato e especializado que elas não conseguem mais entender completamente seu objetivo ou produto e, por extensão, sua parte na melhoria da vida de outras pessoas. Ao contrário de um médico ou construtor, um vice-controlador financeiro assistente em uma grande empresa multinacional pode não ter certeza do efeito ou produto final de seu trabalho – então, por que se preocupar?

Outros fatores psicológicos que podem levar à “preguiça” são o medo e a desesperança. Algumas pessoas temem o sucesso ou não têm autoestima suficiente para se sentirem confortáveis ​​com o sucesso, e a preguiça é a maneira que encontram de sabotar a si mesmas. William Shakespeare transmitiu essa ideia de forma muito mais eloquente e sucinta em Antônio e Cleópatra: ‘A fortuna sabe que mais a desprezamos quanto mais ela nos atinge’. Outras pessoas temem não o sucesso, mas o fracasso, e a preguiça é preferível ao fracasso, porque ocorre de uma vez. “Não que eu falhei”, eles podem dizer a si mesmos, “é que eu nunca tentei”.

Algumas pessoas são “preguiçosas” porque entendem sua situação como sendo tão desesperadora que nem conseguem começar a pensar sobre isso, muito menos fazer algo a respeito. Como essas pessoas são incapazes de resolver suas questões, pode-se argumentar que elas não são verdadeiramente preguiçosas – o que, pelo menos até certo ponto, pode ser dito de todas as pessoas “preguiçosas”. O próprio conceito de preguiça pressupõe a capacidade de escolher não ser preguiçoso, isto é, pressupõe a existência do livre arbítrio.

Neel Burton é autor de diversos livres, entre eles O Mundo de Platão, editora Cultrix.

Em alguns casos, a “preguiça” é exatamente o oposto do que aparenta. Muitas vezes confundimos preguiça com ociosidade, mas a ociosidade – que é não fazer nada – não precisa ser preguiça. Em particular, podemos optar por permanecer ociosos porque valorizamos a ociosidade, e seus produtos, acima do que quer que possamos estar fazendo. Lord Melbourne, o primeiro ministro favorito da rainha Victoria, exaltou as virtudes da “inatividade magistral”. Mais recentemente, Jack Welch, presidente e CEO da General Electric, costumava passar uma hora por dia no que chamava de “olhar pela janela”. E o químico alemão August Kekulé, em 1865, alegou ter descoberto a estrutura de tipo anel da molécula de benzeno enquanto estava imaginando uma cobra mordendo sua própria cauda. Os adeptos desse tipo de ociosidade estratégica usam seus momentos de “ociosidade”, entre outros, para observar a vida, obter inspiração, manter a perspectiva, evitar as bobagens e insignificâncias, reduzir a ineficiência e a meia-vida e conservar saúde e resistência para tarefas e problemas realmente importantes. A ociosidade pode significar preguiça, mas também pode ser a maneira mais inteligente de trabalhar. O tempo é uma coisa muito estranha e não é linear: às vezes, a melhor maneira de usá-lo é desperdiçá-lo.

A ociosidade é muitas vezes romantizada, como sintetizada pela expressão italiana dolce far niente (“a doçura de não fazer nada”). Dizemos a nós mesmos que trabalhamos duro partindo de um desejo de ociosidade. Mas, de fato, achamos até curtos períodos de ociosidade difíceis de suportar. Pesquisas sugerem que criamos justificativas para nos manter ocupados e nos sentirmos mais felizes por isso, mesmo quando o trabalho nos é imposto. Diante de um engarrafamento, preferimos fazer um desvio, mesmo que a rota alternativa provavelmente demore mais tempo do que simplesmente ficar parado no trânsito.

Há uma contradição aqui. Estamos predispostos à preguiça e sonhamos em ficar ociosos; ao mesmo tempo, sempre queremos fazer algo, sempre precisamos nos distrair. Como devemos resolver esse paradoxo? Talvez o que realmente queremos seja o tipo certo de trabalho e o equilíbrio certo. Em um mundo ideal, faríamos nosso próprio trabalho em nossos próprios termos, não o trabalho de outra pessoa nos termos de outra pessoa. Trabalharíamos não porque precisamos, mas porque queremos, não por dinheiro ou status, mas (com o risco de parecer banal) por paz, justiça e amor.

Do outro lado da equação, é fácil demais considerar a ociosidade como algo garantido. A sociedade nos prepara por anos e anos para ser útil como ela assim considera, mas não nos dá absolutamente nenhum treinamento e poucas oportunidades para a ociosidade. Mas a ociosidade estratégica é uma arte de alta qualidade e difícil de realizar – até porque somos programados para entrar em pânico quando deixamos essa vida competitiva. Há uma fina linha divisória entre a ociosidade e o tédio. No século 19, Arthur Schopenhauer argumentou que, se a vida fosse intrinsecamente significativa ou gratificante, não haveria algo como o tédio. O tédio, então, é uma evidência da falta de sentido da vida, que nos abre as persianas de alguns pensamentos e sentimentos muito desconfortáveis, normalmente bloqueados com uma enxurrada de atividades ou pensamentos e sentimentos opostos – ou, de fato, quaisquer sentimento.

No romance do escritor franco-argelino Albert Camus, A Queda (1956), Clamence diz para um estranho:

Eu conhecia um homem que doou 20 de seus anos de vida para uma mulher descuidada, sacrificando tudo por ela: suas amizades, seu trabalho, a própria respeitabilidade de sua vida, e que certa noite reconheceu que nunca a amara. Ele estava entediado, só isso, entediado como a maioria das pessoas. Por isso, ele transformara sua vida em algo cheio de complicações e drama. Algo deve acontecer – e isso explica a maioria dos compromissos humanos. Algo deve acontecer, mesmo escravidão sem amor, mesmo guerra ou morte.

No ensaio “O crítico como artista” (1891), Oscar Wilde escreveu que “não fazer nada é a coisa mais difícil do mundo, a mais difícil e a mais intelectual”.

O mundo seria um lugar muito melhor se todos pudéssemos passar um ano apenas olhando pela janela.

Neel Burton é psiquiatra e filósofo. Ele é associado ao Green Templeton College da Universidade de Oxford. Seu livro mais recente se chama Hypersanity: Thinking Beyond Thinking (2019).

Tradução: João Paulo Morais

Texto original publicado em aeon.co, com licença de tradução e redistribuição. Para maiores informações sobre direitos autorais do texto original, aeon.co/republish.

Foto principal por James Sutton em Unsplash

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *