A evolução humana ainda está acontecendo, e provavelmente mais rápido do que nunca.

por Laurence D. Hurst

A capacidade atual da medicina de nos manter vivos torna tentador pensar que a evolução humana possa ter parado. Melhores sistemas de saúde desligaram uma das principais chaves da teoria da evolução, mantendo algumas pessoas vivas por mais tempo, aumentando a probabilidade de transmissão de seus genes. Mas se observarmos a taxa de evolução do nosso DNA, podemos ver que a evolução humana não parou – pode até estar acontecendo em um ritmo mais rápido.

A evolução é uma mudança gradual no DNA de uma espécie ao longo de muitas gerações. Pode ocorrer por seleção natural, quando certas características criadas por mutações genéticas ajudam um organismo a sobreviver ou a se reproduzir. Portanto, é mais provável que essas mutações sejam passadas para a próxima geração, aumentando assim em frequência na população. Gradualmente, essas mutações e seus traços associados se tornam mais comuns em todo o grupo.

Observando os estudos globais do nosso DNA, podemos ver evidências de que a seleção natural fez mudanças recentemente e continua a fazê-lo. Embora os atuais sistemas de saúde nos salvem de muitas possíveis causas de morte, em países sem acesso a bons cuidados de saúde as populações continuam a evoluir. Os sobreviventes de surtos de doenças infecciosas conduzem a seleção natural, passando sua resistência genética a seus filhos. Nosso DNA mostra evidências de uma recente seleção natural para a resistência à algumas doenças fatais, tais como febre de lassa e malária. A seleção em resposta à malária ainda está em andamento nas regiões onde a doença permanece comum.

Os seres humanos também estão se adaptando ao seu ambiente. Mutações que permitem que humanos vivam em grandes altitudes tornaram-se mais comuns em populações do Tibete, Etiópia e Andes. A disseminação de mutações genéticas no Tibete é possivelmente a mudança evolutiva mais rápida ocorrida em humanos, acontecendo nos últimos 3.000 anos. Esse rápido aumento na frequência de um gene que aumenta o conteúdo de oxigênio no sangue dá aos habitantes locais uma vantagem de sobrevivência em altitudes mais altas, resultando na sobrevivência de mais crianças.

Um dos melhores livros sobre a teoria da evolução foi escrito por Richard Dawkins, um especialista no assunto.

A dieta é outra fonte de adaptações. Evidências no DNA do povo Inuit mostram uma recente adaptação que lhes permite prosperar em sua dieta rica na gordura de mamíferos do Ártico. Estudos também mostram que a seleção natural favorecendo uma mutação que permite aos adultos produzir lactase – a enzima que decompõe os açúcares do leite – é o motivo pelo qual alguns grupos de pessoas podem digerir leite após o desmame. Mais de 80% dos europeus do noroeste podem fazer isso, mas em partes do leste da Ásia, onde o leite é muito menos consumido, a incapacidade de digerir lactose ainda é a norma. Assim como a adaptação em grandes altitudes, a seleção para digerir leite evoluiu mais de uma vez nos seres humanos e pode ser o tipo mais forte de seleção recente.

É possível que também estejamos nos adaptando às dietas pouco saudáveis. Um estudo das mudanças genéticas de famílias nos EUA, durante o século 20, encontrou seleção natural para níveis reduzidos de pressão arterial e colesterol, os quais podem ser letais quando aumentados pelas dietas modernas.

No entanto, apesar dessas mudanças, a seleção natural afeta apenas cerca de 8% do nosso genoma. De acordo com a teoria da evolução neutra, mutações no restante do genoma podem ocorrer livremente nas populações pelo mero acaso. Se a seleção natural é enfraquecida, as mutações que ela normalmente eliminaria não são removidas com a mesma eficiência, o que poderia aumentar sua frequência e logo aumentar a taxa de evolução.

Mas a evolução neutra não consegue explicar por que alguns genes estão evoluindo muito mais rapidamente do que outros. Medimos a velocidade da evolução dos genes comparando o DNA humano com o de outras espécies, o que nos permite determinar quais genes estão evoluindo rapidamente apenas em humanos. Um gene em rápida evolução é o da região acelerada humana 1 (HAR1), necessário durante o desenvolvimento do cérebro. Uma seção aleatória do DNA humano é, em média, mais de 98% idêntica ao de chimpanzés, mas o HAR1 está evoluindo tão rapidamente que é apenas cerca de 85% semelhante.

Perceber que a evolução não acontece apenas pela seleção natural deixa claro que é provável que esse processo nunca pare. Libertar nossos genomas das pressões da seleção natural apenas os abre para outros processos evolutivos – tornando ainda mais difícil prever como serão os futuros seres humanos.

Embora os cientistas possam ver essas mudanças acontecendo – e com que rapidez – ainda não entendemos completamente por que a evolução mais rápida está ocorrendo com alguns genes, mas não com outros. Originalmente pensado como o resultado exclusivo da seleção natural, agora sabemos que isso nem sempre é verdade.

Recentemente, a atenção tem se concentrado no chamado processo de conversão gênica tendenciosa, que ocorre quando o nosso DNA é transmitido através do esperma e dos óvulos. Fazer essas células sexuais envolve quebrar moléculas de DNA, recombiná-las e depois reparar o rompimento. No entanto, reparos moleculares tendem a ocorrer de maneira tendenciosa.

As moléculas de DNA são feitas com quatro bases químicas diferentes conhecidas como C, G, A e T. O processo de reparo prefere fazer correções usando as bases C e G em vez de A ou T. Embora não esteja claro por que esse viés existe, tende a causar G e C tornarem-se mais comuns.

O aumento de G e C nos locais de reparo regulares do DNA causa uma evolução ultrarrápida de partes do nosso genoma, um processo facilmente confundido com a seleção natural, pois ambos causam uma rápida mudança de DNA em locais altamente localizados. Cerca de um quinto dos nossos genes de evolução mais rápida, incluindo o HAR1, foi afetado por esse processo. Se as alterações no GC forem prejudiciais, a seleção natural normalmente se oporia a elas. Mas, com a seleção enfraquecida, esse processo não pode ser controlado e até mesmo ajuda a acelerar a evolução do nosso DNA.

A taxa de mutação humana em si também pode estar mudando. A principal fonte de mutações no DNA humano é o processo de divisão celular que cria espermatozoides. Quanto mais os homens envelhecem, mais mutações ocorrem no esperma. Portanto, se a contribuição deles para o amalgama genético mudar – por exemplo, se os homens tiverem filhos mais tarde – a taxa de mutação também mudará. Isso define a taxa de evolução neutra.

Perceber que a evolução não acontece apenas pela seleção natural deixa claro que é provável que esse processo nunca pare. Libertar nossos genomas das pressões da seleção natural apenas os abre para outros processos evolutivos – tornando ainda mais difícil prever como serão os futuros seres humanos. No entanto, é bem possível que, com as proteções da medicina moderna, haja mais problemas genéticos reservados para as gerações futuras.

Laurence D. Hurst é professor de genética evolutiva no Milner Centre for Evolution da University de Bath.

Traduzido por João Paulo Morais

Artigo originalmente publicado em The Conversation, traduzido com autorização do autor.

Foto por Lachlan Dempsey em Unsplash

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

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