Um sentido para a vida? A resposta de um existencialista darwiniano

por Michael Ruse

Fui criado como um quaker, mas quando eu tinha por volta de 20 anos minha fé desapareceu. Seria mais simples atribuir o motivo dessa mudança ao fato de ter optado pela filosofia – minha ocupação ao longo da vida, tanto como professor quanto por estudioso. Mas essa não é verdade. Mais precisamente brinco que, já tento tido um diretor de escola nesta vida, serei condenado se quiser um outro no além-vida. Naquela época, eu estava convencido de que, aos 70 anos, minha fé no Todo Poderoso estaria de volta. Mas a fé não voltou e, à medida que me aproxima dos 80, não aparece em nenhum lugar no horizonte. Sinto-me mais em paz comigo mesmo do que nunca antes. Não é que eu não me importe com o significado ou o propósito da vida – eu sou um filósofo! Meu senso de paz também não significa que sou complacente ou que tenho ilusões sobre minhas realizações e sucessos. Em vez disso, sinto que o profundo contentamento acerca da qual as pessoas religiosas nos dizem é a recompensa por ter uma vida adequada.

Chego ao meu estado atual por duas razões distintas. Como estudante de Charles Darwin, estou totalmente convencido – Deus ou não Deus – de que somos (como costumava dizer o grande biólogo do século XIX, Thomas Henry Huxley) macacos modificados em vez de lama modificada. A cultura é extremamente importante, mas ignorar nossa biologia é errado. Segundo que sou atraído, filosoficamente, pelo existencialismo. Um século depois de Darwin, Jean-Paul Sartre disse que estamos condenados à liberdade, e acho que ele está certo. Mesmo que Deus exista, ele ou ela é irrelevante. As escolhas são nossas.

Sartre negou a natureza humana. Deste francês por excelência, repito esse ponto de vista com uma pitada de sal: somos livres, mas dentro do contexto de nossa natureza humana como visto por Darwin. Do que estou falando? Muitos filósofos hoje em dia se sentem desconfortáveis de levantar a ideia de “natureza humana”. Eles sentem que, muito rapidamente, isso será usado contra minorias – gays, deficientes e outros – para sugerir que eles não são realmente humanos. Este é um desafio, não uma refutação. Se uma definição de natureza humana não consegue levar em conta o fato de que ao menos 10% de nós somos homossexuais, então o problema não está na natureza humana, mas na sua definição.

Michael Ruse é autor de vários livros, entre eles A Meaning to Life, em Inglês.

O que é, então, a natureza humana? Em meados do século XX era popular sugerir que somos macacos assassinos: podemos e fabricamos armas, então as usamos. Mas os primatologistas modernos têm pouco tempo para essa ideia. Suas descobertas sugerem que a maioria dos macacos prefere fornicar do que lutar. Ao fazer guerra, realmente não estamos fazendo o que nos vem naturalmente. Não nego que os humanos sejam violentos, no entanto nossa essência segue o contrário: é a da sociabilidade. Não somos tão rápidos, não somos tão fortes, ficamos desesperançosos quando os tempos são sombrios; mas obtemos sucesso porque trabalhamos juntos. De fato, nossa falta de armas naturais indica isso. Não podemos conseguir tudo o que queremos através da violência. Nós devemos cooperar.

Não foram os darwinistas que descobriram esse fato sobre nossa natureza. Vejamos o que diz o poeta metafísico John Donne em 1624:

Nenhum homem é uma ilha isolada // cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra // se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída // como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria // a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. // E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; // eles dobram por ti.

A teoria darwiniana da evolução mostra como tudo isso aconteceu, historicamente, através das forças da natureza. Sugere que não há futuro eterno ou, se houver, não é relevante para o aqui e agora. Em vez disso, devemos viver a vida ao máximo, dentro do contexto – libertado por – nossa natureza humana, criada por seleção natural. Eu vejo três maneiras básicas pelas quais isso ocorre.

Primeiro, família. Os seres humanos não são como orangotangos do sexo masculino, cuja vida doméstica é composta principalmente de encontros de uma noite só. Um homem que aparece, faz seus negócios e depois, sexualmente saciado, desaparece. E a fêmea impregnada dá à luz e cria os filhos sozinha. Isso é possível simplesmente porque ela pode. Se ela não pudesse, biologicamente seria do interesse dos homens em ajudá-las. Os pássaros machos ajudam no ninho porque, expostos em árvores, os filhotes precisam crescer o mais rapidamente possível. Os seres humanos enfrentam desafios diferentes, mas com o mesmo fim. Temos cérebros grandes que precisam de tempo para se desenvolver. Nossos jovens não podem cuidar de si mesmos em semanas ou dias. Portanto, os seres humanos precisam de muito cuidado dos pais, e nossa biologia se encaixa na vida doméstica, por assim dizer: cônjuges, filhos, pais e muito mais. Os homens não empurram o carrinho do bebê por acaso. Nem por acaso se gabam para seus colegas de trabalho sobre o filho entrar em Harvard.

Segundo, sociedade. Colegas de trabalho, atendentes de lojas, professores, médicos, funcionários de hotéis – a lista é interminável. Nossa força evolutiva é que trabalhemos juntos, ajudando e esperando ajuda. Sou professor, mas não apenas dos meus filhos como também dos seus (e de outros). Você é médico: presta assistência médica não apenas aos seus filhos, mas também aos meus (e a outros). Dessa forma, todos nos beneficiamos. Como Adam Smith apontou em 1776, nada disso acontece por acaso ou porque a natureza se tornou suave de repente: “Não é da boa-vontade do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos obter nosso jantar, mas da consideração deles com seu próprio interesse”. Smith invocou a “mão invisível”. O darwiniano atribui isso à evolução através da seleção natural.

Embora a vida às vezes possa ser um tédio, a biologia garante que geralmente continuamos com nosso trabalho e o façamos como parte da realização de nossas vidas. John Stuart Mill acertou em 1863 quando disse: “Quando as pessoas que são razoavelmente afortunadas em suas circunstâncias materiais não encontram prazer suficiente na própria vida, isso geralmente ocorre porque eles só se importam com elas e mais ninguém”.

Terceiro, cultura. Obras de arte e de entretenimento, TV, filmes, peças teatrais, romances, pinturas e esportes. Observe como tudo isso é social. Romeu e Julieta é sobre dois filhos apaixonados. Os Sopranos, sobre uma família da máfia. Há evolucionistas que duvidam que a cultura esteja tão fortemente ligada à biologia e que tendem a vê-la como um produto secundário da evolução, o que Stephen Jay Gould, em 1982, chamou de “exaptação”. Isso certamente é verdade em parte. Mas provavelmente apenas em parte. Darwin achava que a cultura poderia ter algo a ver com a seleção sexual: protohumanos usando músicas e melodias, digamos, para atrair potenciais parceiros. Sherlock Holmes concordou; em A Study in Scarlet (1887), ele diz para Watson que a habilidade musical é anterior à fala, pois estaria de acordo com Darwin: “Talvez seja por isso que somos tão sutilmente influenciados por ela. Há uma vaga lembrança em nossas almas daqueles séculos enevoados em que o mundo estava em sua infância.”

Estes são os fatos. Eu tive uma vida familiar completa, uma esposa amorosa e filhos. Eu até gostei dos adolescentes. Tenho sido professor universitário há 55 anos. Nem sempre eu fiz meu trabalho da melhor maneira possível, mas não minto quando digo que segunda-feira de manhã é o meu horário favorito na semana. Não sou um artista criativo e sou péssimo nos esportes. Mas eu fiz meus estudos e pesquisas e compartilhei isso com outras pessoas. Por que mais estou escrevendo isso? Eu gostei de trabalhar com outros seres humanos. Uma grande performance da ópera de Mozart, O casamento de Figaro, é como o paraíso. Eu falo literalmente.

Este é o meu significado para a vida. Quando encontrar meu Deus inexistente, direi para Ele: “Deus, você me deu talentos e foi muito divertido usá-los. Obrigado”. Não preciso mais. Como George Meredith escreveu em seu poema ‘In the Woods’ (1870):

O amante da vida conhece seu trabalho divino // E então está em paz.

Michael Ruse é professor de filosofia na Florida State University. Ele já editou ou escreveu mais de 50 livros, incluindo os mais recentes On Purpose (2017), Darwinism as Religion (2016), The Problem of War (2018) e A Meaning to Life (2019).

Traduzido por João Paulo Morais.

Texto original publicado em aeon.co, com licença de tradução e redistribuição. Para maiores informações sobre direitos autorais do texto original, aeon.co/republish.

Imagem principal por Ben White via Unsplash

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

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