Pode a vida florescer em qualquer tipo de ambiente? A ciência está começando a descobrir alguns limites

A vida parece estar em todos os lugares. Não falo sobre o tipo de vida que percebemos diretamente, mas a vida microbiana que habita os locais mais inóspitos da Terra, desde as camadas polares até os habitats mais quentes e os locais mais profundos do planeta. No entanto, os cientistas podem ter começado a encontrar os limites até onde a vida pode existir.

Como noticiado pela revista Science, estudos recentes, um deles publicado nos últimos dias na prestigiosa revista Nature, encontraram locais na natureza onde nenhum tipo de microrganismo consegue sobreviver. Um deles é a área de Dallol–Danakil, na Etiópia, no lago Rift Valley, onde a água acidificada pelos gases vulcânicos, juntamente como uma grande concentração de sal, parece impedir a existência de organismos vivos.

A bióloga Purificación López-García, da Universidade de Paris-Sud, e sua equipe, foram incapazes de detectar qualquer tipo de vida em locais da região onde a concentração de sal atingiu 50% e a acidez era alta. Aparentemente a alta salinidade, juntamente com a acidez e a temperatura, são letais para a vida. Uma das causas pode ser o fato de que os sais encontrados eram ricos em magnésio e o magnésio causa a dissolução das membras celulares.

Um outro exemplo da impossibilidade de vida parece ter sido encontrado no vale glacial de Shackleton. Segundo o estudante de doutoramento Nicholas Dragone, da Universidade de Colorado, mesmo após dois meses de tentativas de encontrar organismos vivos em amostradas retiradas deste ambiente, nada foi encontrado.

Ser capaz de identificar locais onde não há qualquer tipo de organismo vivo é um acontecimento único, disse Dragone em uma entrevista para a repórter Elizabeth Pennisi, da revista Science. De acordo com o paleontólogo do museu de história natural de Los Angeles, Nathan Smith, essas descobertas contrariam a ideia de que a vida na Terra está, literalmente, em todos os lugares.

Conhecer essas fronteiras (da possibilidade da existência de vida) é útil na busca por vida em condições extremas na terra e em outros planetas. “Tais estudos nos dão uma nova ferramenta para compreender o potencial da existência de vida em qualquer lugar”, completa Smith.


João Paulo Morais é astrônomo formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba.

A reportagem completa da revista science (em inglês) pode ser encontrada aqui.

Foto principal por Jill Heyer via Unsplash

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *