Norte-americanos, em especial os millennials, estão abraçando cada vez mais a carne à base de plantas

por Sheril Kirshenbaum e Douglas Buhler, em theconversation.com

Muitos cientistas estimam que até o ano de 2050 o suprimento mundial de alimentos precisará aumentar de forma acentuada, a partir do nível atual, para atender à demanda de uma população global que será de 9 a 10 bilhões de pessoas. Por outro lado, espera-se que as próximas décadas apresentem temperaturas mais altas e variáveis, além de secas, inundações e tempestades cada vez mais severas, condições estas que tornam a segurança alimentar mais complicada e incerta do que nunca.

As biotecnologias emergentes estão abrindo cenários para novos tipos de alimentos que podem ajudar a alimentar a crescente população mundial, utilizando menos recursos e em ambientes mais extremos e imprevisíveis. Com a intensificação do debate acerca dos impactos da produção de carne, através do grupo de pesquisa de alfabetização e engajamento de alimentos da universidade estadual de Michigan, temos acompanhado as atitudes dos EUA relacionadas à alimentação alternativa baseada em plantas. Os resultados revelam um crescente apetite por carne à base de plantas entre os consumidores, especialmente os millennials e a geração Z.

Uma nação que adora carne

Muitos cientistas e ambientalistas recomendam comer menos carne como forma de tornar o estilo de vida moderno mais saudável e sustentável. Mais recentemente, um relatório amplamente divulgado pela EAT-Lancet, produzido por uma equipe internacional de especialistas em saúde, agricultura e sustentabilidade, recomendou consumir menos de 14 gramas de carne vermelha por dia.

Os norte-americanos estão entre os principais consumidores de carne do mundo. O Fórum Econômico Mundial estima que em 2016 os norte-americanos ingeriram uma média de 97 kg de carne por pessoa. Em contraste, os argentinos consumiram em média 86 kg e os europeus, em média, 67 kg por pessoa.

A crescente preocupação com as mudanças climáticas gerou um crescimento no número de startups de biotecnologia no Vale do Silício, focadas no desenvolvimento de carnes alternativas à base de plantas. Embora hambúrgueres vegetarianos e “carnes” vegetarianas, frequentemente compostas de soja, feijão e lentilha, já existam há décadas, mas essa nova geração possui um diferencial: além dos benefícios de sustentabilidade por ser feita inteiramente de vegetais, tem um gosto cada vez mais parecido com o de carne.

Em 2018, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) aprovou o “Hamburguer Impossível”, feito à base de plantas, mas que conta com um ingrediente de levedura geneticamente modificada para incorporar o “heme”, uma molécula contendo ferro que permite que a carne “sangre”. Em uma espécie de endosso, a repórter vegetariana da CNET, Joan E. Solsman, descobriu que o produto era tão próximo de carne de verdade que “a enojou”.

O “Impossível Slider”, da cadeia de fast food White Castle, ganhou vários prêmios no Consumer Electronics Show 2019 em Las Vegas. Em 2019, o Burger King começou a vender o “Impossível Whopper”, recebendo uma série de elogios, e em 20 de setembro, o “Hamburguer Impossível” tornou-se disponível para os consumidores em supermercados da Califórnia, competindo com o “Beyond Burger” e outras ofertas de produtos à base de plantas da Beyond Meat.

Consumidores curiosos

Com esses produtos ganhando cada vez mais cobertura na mídia, não é surpresa que os resultados mais recentes de nossa pesquisa bianual e nacionalmente representativa, de mais de 2.100 pessoas, sugiram que as perspectivas sobre as alternativas de carne à base de plantas estão mudando rapidamente. Em fevereiro de 2018, 48% dos entrevistados disseram que era improvável que  “comprassem alimentos com aparência e sabor idênticos ao de carne, porém baseados em ingredientes produzidos artificialmente”. Em setembro de 2019, esse número havia caído para 40%.

Nossa pesquisa constatou que, nos 12 meses anteriores, 35% dos entrevistados consumiram produtos alternativos à carne, baseados em plantas. Desse grupo, 90% dos entrevistados disseram que o fariam novamente. Entre aqueles que ainda não haviam consumido tais produtos alternativos, 42% estavam dispostos a experimentá-los, enquanto 30% dos entrevistados continuava sem vontade.

Também identificamos diferenças geracionais muito significativas nas atitudes. Quase metade (48%) dos entrevistados com menos de 40 anos já estava comendo carne à base de plantas, enquanto apenas 27% daqueles com 40 anos ou mais havia experimentado tais tipos de produto.

Esses resultados são similares à pesquisa realizada em 2019 pela Impossible Foods, que descobriu que mais da metade dos entrevistados da geração Z e dos chamados millenials já consumia carne à base de plantas ao menos uma vez por mês, em comparação com apenas um quinto dos adultos norte-americanos com mais de 55 anos.

Cada vez mais empresas estão introduzindo alternativas à carne em todo o país. Os gigantes do setor alimentício Kellogg e Hormel lançarão. em breve, suas próprias linhas de produtos à base de plantas, chamadas respectivamente de “Incogmeato” e “Happy Little Plants”.

A nova geração de carnes à base de plantas não tem por objetivo substituir outros produtos vegetarianos que já estão no mercado, ou atingir um conjunto específico de consumidores preocupados com a saúde. Eles foram projetados para reduzir o impacto global da carne bovina ao menos tempo que atraem todo tipo de consumidor.

Com a expectativa de que a geração millennial se torne a maior geração de adultos vivos nas Américas, sua disposição de adotar as carnes à base de plantas sugere um contínuo sucesso para essa emergente biotecnologia. Também tem implicações para a agricultura, a indústria de alimentos, a segurança alimentar e a sustentabilidade ambiental em todo o mundo.

Sheril Kirshenbaum é pesquisadora associada na universidade estadual de Michingan, e Douglas Buhler é diretor da AgBioResearch e vice-presidente assistente de pesquisa e inovação da universidade estadual de Michingan.

Traduzido por João Paulo Morais.

Artigo originalmente publicado em inglês no site theconversation.com.

Foto principal por Tai’s Captures via Unsplash.

The Conversation

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

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