Causalidade, nossa amiguinha incompreendida

Por Claudio Farias

Em qualquer debate ou reflexão, a busca por conexões entre causas e consequências é praticamente onipresente. Em política e questões morais, o pensamento padrão é “o que temos que fazer para solucionar tal problema?” que é mais ou menos o equivalente a se perguntar “que alterações devemos fazer numa determinada causa para que isso gere uma consequência desejada?”. Como exemplos podemos pensar “que tipo de treinamento de policiais ou que tipo de ajustes urbanísticos e econômicos podemos fazer para reduzir a violência”, “que taxa de câmbio ou meta inflacionária pode produzir mais crescimento econômico?”, “que tipos de leis reguladoras e políticas de assistência podem reduzir a desigualdade social?”, “como evitar uma guerra?” Essas são questões complexas, mas inevitáveis. E, dada a colossal importância da consciência da causalidade em nossas vidas, outro ponto igualmente complexo emerge: antes de saber o que fazer com uma causa, como determinar a causa de algo? Neste artigo, pretendo discutir algumas propriedades, muitas delas sutis e nem sempre consideradas, sobre a questão da causalidade.

Antiguidade

Uma das mais antigas e mais importantes abordagens sobre a causalidade é a de Aristóteles. O filósofo grego concebia um universo teleológico, ou seja, um universo no qual a explicação para todos os fenômenos e coisas envolve, de alguma forma, uma conexão com sua finalidade ou propósito. Aristóteles se valeu da palavra cosmos (oposto de caos) para descrever um universo harmônico, onde tudo tem uma função específica e que funciona e se mantém estável se tudo cumprir sua função neste grande esquema. Assim, o olho é como é porque sua função no universo é fazer os seres enxergarem, seres esses que, por sua vez, possuem sua finalidade no cosmos. O discípulo de Platão denominou as explicações com base na finalidade de causa final. Ele ainda reconhecia a existência de outros três tipos de explicações: causa material, explicar coisas e fenômenos com base no material em que as estas são feitas, causa formal, buscar explicações com base em sua forma e causa eficiente, uma explicação baseada no fato de que alguém causou algo. Aristóteles estabeleceu que, sendo o universo verdadeiramente teleológico, mesmo que as três últimas causas expliquem bem os fenômenos, elas são apenas consequência da causa final. Esta última sempre estaria acompanhando as outras três em qualquer explicação.

O ponto central aqui é que a teleologia, a descrição do universo como base em propósitos e causas finais, assim como as outras três formas de explicação das causas, é uma propriedade fundamental da natureza aristotélica e não um esquema para explicar um fenômeno aqui ou outro ali do dia a dia. Sendo uma propriedade fundamental da natureza, ela conflita diretamente com a visão do cosmos desenvolvida pela ciência moderna.

O Demônio de Laplace

As equações desenvolvidas por Galileu, Newton e outros não fazem referências a grandes propósitos movendo o mundo. Podemos aplicá-las a situações do dia a dia, como uma mão empurrando um bloco com determinada massa, mas isso é só uma aplicação. A lei fundamental não carece de descrições mundanas [1]

Foi pensando na natureza dos modelos e equações de Newton que Pierre-Simon Laplace elaborou a visão moderna sobre causalidade. Se lhe perguntássemos qual a causa de um determinado evento no presente é bem provável que Laplace respondesse “a configuração do universo no momento anterior e as leis da física que conectam o passado ao presente”. Note que não há nenhuma teleologia aqui. As coisas não acontecem por um propósito final, pelo menos não fundamentalmente.

Laplace concebeu um universo que, mais familiarmente, chamamos de determinista. Toda informação sobre o futuro está codificada no passado e vice versa. Se você quer saber o futuro de todas as coisas do universo tudo que você precisa é de toda a informação informação do universo em determinado instante, das leis da física e de um computador suficientemente potente para calcular toda essa informação. Um tanto demais, não? Na época de Laplace não existiam computadores, então a analogia usada nessa época não foi com um esse tipo de instrumento. As pessoas concebiam que somente um demônio poderia ter tal conhecimento total do universo e tal capacidade de cálculo. Assim surgiu a figura fictícia do Demônio de Laplace, uma entidade mística com conhecimento de toda configuração do universo em qualquer instante, de todas as leis da física e de um colossal poder de processamento.

Você pode pensar: “Ora, eu não preciso de um universo inteiro para determinar uma causa. Se uma bola de sinuca branca colide com uma bola preta e esta última ganha movimento, eu sei que o choque das duas bolas causou o movimento da bola preta.” Num certo sentido você está certo, mas ignora o que causou o movimento da bola branca. Também ignora que os eventos não acontecem numa linha causal, mas numa rede de conexões em que tudo interfere em tudo, em que múltiplas causas geram uma consequência. E ignora também que bolas de sinuca não são objetos essenciais e indivisíveis, elas são compostas por partículas que têm sua própria dinâmica de interação. Um demônio de Laplace, se existisse, seria capaz de saber todas as posições e velocidades de todas as partículas do universo e calcular suas posições e velocidades futuras, reunir todas as informações, localizar as que são relevantes para um jogo de sinuca e dizer: aqui está a posição e a velocidade da bola de preta num dado instante.

O escritor de ciência e filosofia Joe Boswell considerou a complexidade desse problema como uma sequência de “E se’s” enquanto tentava encontrar a causa do seu divórcio: “E se eu tivesse sido um ouvinte melhor? E se ela nunca tivesse conhecido esse outro cara? E se tivéssemos um colchão confortável e não estivéssemos tão cansados ​​o tempo todo – poderia ter sido isso?

Boswell lembra que esse esse é um problema que perturbou grandes mentes com John Stuart Mill e Bertrand Russell. Em “A System of Logic” (1843), Mill discute a impossibilidade de escolher uma única causa para um evento. No ensaio “Sobre a Noção de Causa” (1912-1913), Russell reconhece que “um círculo continuamente maior de antecedentes” é necessário para o cálculo preciso de qualquer evento. Se continuarmos descendo a escada em busca de eventos que estão numa região cada cada vez mais ampla de possibilidades, vamos chegar ao fundo do poço da física fundamental, onde reina o Demônio de Laplace, e que só partículas e interações fundamentais interessam.

Esse não é um cenário confortável. Para entender melhor esse abismo entre uma realidade fundamental com informações sobre posições e velocidades de partículas e a nossa realidade do dia a dia precisamos introduzir os conceitos de granulação grosseira e emergência.

Antes disso, dois pontos ainda merecem ser mencionados sobre determinismo: o primeiro é sobre Mecânica Quântica. Muitos sugerem que a teoria de Schrodinger, Heisenberg e outros pôs fim ao domínio do determinismo na ciência. Mas a Mecânica Quântica ainda é pouco compreendida e algumas de suas interpretações mantém o determinismo. Assim, não podemos tirar conclusões precipitadas sobre interpretações ainda não estabelecidas.

O segundo é sobre livre arbítrio. Ora, o cérebro humano é o objeto mais complexo que conhecemos e o Demônio de Laplace, um ser fictício de atributos inimagináveis. A dinâmica de sentimentos, razão e escolhas ainda funciona bem no nosso nível de complexidade. E, sim, pensar sobre o nível de complexidade é fundamental para nossa reflexão sobre causalidade.

Granulação grosseira e emergência

Imagine que você é um biólogo interessado em estudar a biodiversidade de uma floresta. Você quer estudar os tipos de seres vivos e a interação entre eles mas, quais tipos de seres vivos? Você pode considerar várias espécies de árvores, de macacos ou até de insetos. Mas vai levar em conta também vírus e bactérias? Até que ponto vale a pena se aprofundar na complexidade da floresta? 

Podemos definir granulação grosseira como um nível de “corte” sobre os detalhes que estamos considerando. Se você exclui vírus e bactérias, você estabelece um nível de corte. Se exclui também insetos e outros animais pequenos, seu corte está em outro nível. Note que quanto mais seres você exclui da sua análise, seus resultados serão menos fiéis à realidade. O problema passa a ser qual corte pode gerar apenas erros desprezíveis.

Chamamos esse tipo de escolha do nível de corte do que queremos abordar de granulação grosseira. Quanto mais grosseira a granulação, maior o tamanho dos seres a serem estudados por um biólogo numa floresta. O nome granulação faz referência a algo que conhecemos bem: se você ampliar uma fotografia, logo vai descobrir que ela não é uma representação perfeita da realidade. As células de uma pessoa fotografada não vão aparecer como se você tivesse um microscópio em mãos. Ao invés disso, apenas os pixels fundamentais da imagem vão aparecer. Você verá uma fotografia granulada. A resolução de uma fotografia determina o seu nível de granulação. A figura a, abaixo, tem o nível de granulação grosseira mais baixo (ou de granulação fina mais alto), seus pixels são pequenos e é necessário ampliá-la bastante para observá-los. As figuras b, c e d têm níveis de granulação grosseira mais alto sentido da esquerda para direita (ou de granulação fina mais alta da direita para esquerda). É na figura d que é mais fácil obter os pixels, ou grãos, fundamentais sem ampliá-la.

Figuras a, b, c e d, da esquerda para direita em níveis crescentes de granulação grosseira

Os modelos e equações da física moderna procuram descrever a realidade em termos de partículas submetidas a interações com campos de força e com outras partículas. Essa é uma forma de ir fundo nos fundamentos da realidade e, a partir dele, de reconstruir a situação do dia a dia quando consideramos grandes conjuntos de partículas em dimensão macroscópica.

Tome o exemplo clássico da água. Ela é constituída por moléculas muito pequenas invisíveis a olho nu e entre elas há espaço vazio. Na escala humana do tamanho das coisas, a água parece algo bem diferente: não vemos pontos e espaços vazios, mas sim um fluido, uma coisa líquida dotada de propriedades como temperatura, pressão e viscosidade, que não existem na escala microscópica.

A existência diferentes propriedades, leis e fenômenos em diferentes diferentes níveis de granulação grosseira é chamada de emergência. A fluidez da água é dita uma propriedade emergente desta substância.

Do Demônio de Laplace à nossa experiência diária ocorre um extenso processo granulação (um caminho da figura a para d). Não estamos interessados na posição e velocidade de cada partícula do universo da mesma forma que, quando consumimos água, não estamos interessados em sua natureza granular: tratamo-na como um líquido. No nível de granulação grosseira do nosso dia a dia, estamos interessados aspectos identificáveis pela consciência humana ou, no que se refere à causalidade, estamos interessados em como eventos identificáveis por nossa experiência afetam outros eventos identificáveis, isto é, estamos interessados em aspectos emergentes da realidade. Nossa experiência do dia a dia é um aspecto emergente da realidade física que a sustenta.

Assim, poderíamos argumentar com Mill e Russell dizendo-lhes que não é uma questão de se desesperar, mas apenas escolher um nível de granulação (ou corte) e acrescentar a sua análise se o que está a baixo do corte é realmente relevante para a situação mundana que estamos considerando. Erros sempre vamos cometer (não somos demônios de Laplace), mas podemos avaliar se esse erro é aceitavel. Quando não for, entender como eventos ocorrem em diferentes níveis de granulação e complexidade é importante para compreender o nível de realidade em que vivemos. É preciso ter cuidado para não nos acomodarmos no nosso nível de granulação.

Tome, por exemplo, o sentido da palavra “acaso”. Sua etimologia se refere a “não causa”, ou algo que surgiu do nada. Quando jogamos um dado ou uma moeda, cada um dos seis resultados do dado ou dos dois da moeda pode nos parecer que surgiu do nada, mas sabemos que não é assim. Sabemos que o ponto central é que não temos controle suficientemente preciso da posição inicial do dado ou da moeda nem sabemos como determinar, a partir deles, o resultado final. Basicamente, o nível de granulação dessas informações está numa região mais alcançável pelo demônio de Laplace (Mais próximo da figura a do que por nossa experiência diária e por nossa coordenação motora). Mas também não é preciso ser um Demônio de Laplace para ter sucesso nessa previsão, máquinas suficientemente modernas poderiam fazer isso.

O ponto aqui é que nosso apego à experiência diária pode nos iludir sobre o papel do acaso. Ele não é “ausência de causa” mas apenas um ponto que não estamos acostumados a considerar, e sua influência na nossa vida é dificilmente superestimada. Somos constantemente influenciados pelo acaso (eventos que ocorrem num nível de granulação fina que somos capazes de alcançar) [2].

Mais ainda, temos compreensões errôneas sobre diversos aspectos do fenômeno da causalidade, mesmo ela sendo vital para qualquer propósito moral no mundo. E os erros vão muito além da negligência à multiplicidade das causas ou aos níveis de complexidade física.

A sociologia normativa

O conceito de granulação grosseira é tão poderoso, que nos permite analogias mais ambiciosas em outros terrenos fora da física fundamental. Podemos usá-lo como uma medida do grau de complexidade de nossas concepções de mundo.

O fato é que nossas representações de mundo são sempre mais simples que a realidade. Moldamos nossas percepções de acordo com nossa experiência emergente macroscópica diária, mas não só com ela. É preciso levar em conta também como nosso cérebro molda a realidade. Podemos, grosso modo (e há uma metalinguagem aqui) imaginar que enquanto a realidade tem a granulação da figura a, nosso cérebro cria representações com a granulação da figura d.

Há aqui um problema de volume de informação: mesmo toda informação macroscópica não pode ser absorvida de uma vez só. Por isso, a evolução dotou o cérebro humano de atalhos e truques que permitem absorver apenas uma parte da informação em detrimento de outras e formar uma imagem de mundo que é bem diferente daquela da realidade. Esses atalhos e truques são os chamados vieses cognitivos.

Muitos desses vieses distorcem nossa percepção da causalidade dos eventos. Muitos são importantes e podem ser consultados aqui. Para citar um bastante interessante, considere o viés de antropomorfização: a tendência a enxergar influências humanas ou intencionais em eventos naturais ou aleatórios. Se você leva uma topada numa pedra, sua dor no dedão e sua raiva pode fazê-lo acreditar que alguém colocou aquela pedra ali de propósito para machucá-lo ou até mesmo culpar a pedra por estar lá. Você pode descontar sua raiva na pedra por exemplo, situação essa muito semelhante a da causa eficiente de Aristóteles, e é a que pessoas geralmente atribuem como o verdadeiro significado da palavra “causa”. Essa tendência se torna mais problemática quando aplicada a política: tendemos a acreditar que todos os problemas, mesmo que sejam naturais, aleatórios ou até mesmo humanos, mas cujas causas são múltiplas e complexas podem ser atribuídos à má fé de algum governante ou grupo político. Essa tendência ajuda a ver um mundo como uma história de luta entre o bem e o mal em que todas as coisas boas acontecem porque as pessoas boas assim o quiseram e as coisas más por que as pessoas más assim o quiseram. Assista a uma telenovela e confira se as coisas não funcionam assim. Isso acontece por que as relações humanas entre poucas pessoas foram bastante presentes no no processo evolutivo do desenvolvimento da cognição humana. Nosso cérebro foi moldado para considerar intenções individuais simples e descartar fenômenos complexos.

Fica evidente então que o papel das emoções também é uma coisa impossível de ser negligenciada em nossa análise. Seres conscientes são dotados de desejos e normas, não são absorvedores automáticos dos aspectos factuais do mundo. Até aí tudo bem. Os problemas começam quando fatos e normas morais são confundidos. Sobre isso, o filósofo escocês David Hume escreveu em Tratado da Natureza Humana:

“Não há método de raciocínio mais comum, e ainda assim mais condenável, do que, em disputas filosóficas, tentar a refutação de qualquer hipótese apelando ao perigo de suas consequências para a religião e a moralidade. Quando uma opinião leva a absurdos, é certamente falsa, mas não é certo que uma opinião é falsa porque sua consequência é perigosa.”

Isso é muito comum. Já o filósofo norte americano Robert Nozick escreveu em “Anarquia, Estado e Utopia”: 

“A sociologia normativa, o estudo das causas que os problemas deveriam ter, muito nos fascina”

Era uma piada. Nozick não se referia à ciência da Sociologia propriamente dita, mas a qualquer análise sobre a sociedade em que nosso desejo sobre o que deve ser a causa de algo tem mais importância que a averiguação empírica de um fato. O que concordava com Hume.

O pensamento de Nozik inspirou seu colega canadense Josef Heath a descrever quatro formas em que a dita ‘sociologia normativa’ se manifesta.

Primeiro, Heath descreve como lidamos com certos tipos de males: existe um grande mal, um verdadeiro mal, que, por ser tão evidentemente mal, acabamos exagerando seus poderes. Ele cita como exemplo o racismo e a desigualdade: ora, sabemos que estes dois males causam muito sofrimento no mundo, tanto que nos sentimos a vontade para tomá-los como causa de qualquer outro problema. É como um serial killler que já tenha assassinado 19 pessoas. Os crimes já são suficientemente bárbaros mas, se um novo assassinato ocorre, sentimos que negar o vigésimo caso pode ser uma forma de abrandar a crueldade dos outros 19. O mesmo raciocínio vale para qualquer situação em que negar que A é a causa de B se torna algo moralmente estigmatizado, o que faz com que as pessoas acreditem que A é realmente a causa de B, não pela existência de evidências empíricas, mas por que se sentem socialmente compelidas a acreditar nisso.

Segundo, ele aponta a necessidade das pessoas de terem uma alavanca política para tudo. Imagine que a razão de todos os problemas que você possui é o fato de que três ruas atrás da sua, numa determinada casa, existe uma alavanca travada numa posição, se você destrava a alavanca, todos os seus problemas vão se resolver. É um raciocínio semelhante ao de quem acha que o governo pode mudar a realidade do país por meio de um decreto que altera algum número na economia sem considerar amplos fatores estruturais. É também o mesmo raciocínio de quem acha que vai mudar o mundo mudando as palavras, por que as palavras são talvez a coisa de mais fácil alcance. Não duvido que as palavras tenham influência no mundo, mas da forma que o policiamento linguístico é feito hoje me parece mais um fetiche desesperado. A linguagem se transformou num alavanca de ouro.

Terceiro, o filósofo canadense lembra o receio das pessoas em culpar a vítima. Perceba que a palavra culpa aparece pela primeira vez neste texto que já falou tanto de causas. Culpa e causa não são a mesma coisa. Culpa tem o mesmo significado de responsabilidade, que é uma palavra usada para designar quem responde por algo, enquanto causa denota apenas um aspecto da realidade externa à mente humana. No exemplo de Heath, se eu tomo uma cerveja e, quando termino, jogo a garrafa pela janela, acertando a cabeça de alguém, eu sou o único culpado da pancada, mas não sou o único causador: a pessoa que passou naquele lugar naquela hora também causou o problema. O patrão dela que a deixou sair meia hora mais cedo do trabalho também o é, do contrário, só encontraria a garrafa de cerveja no chão. A pessoa que me vendeu a cerveja também causou o problema, assim como o fabricante da cerveja, assim como muitas informações sobre a posição e a velocidade de muitas partículas que estão num nível de granulação inalcançável, assim como o estado do universo em momentos anteriores, mas só eu posso ser considerado responsável ou culpado pelo evento, não somente por que o causei, mas também porque recai sobre meu ato um peso moral atribuído pela sociedade: andar na rua não é imoral, jogar garrafas de vidro pela janela sem olhar quem está passando sim. O mesmo vale para quem anda numa rua escura e é assaltado ou para uma mulher que é assediada por usar roupas curtas: reconhecer alguma causalidade nesses exemplos não implica (ou pelo menos não deve implicar) a culpa de uma pessoa em andar numa rua escura ou usar roupas curtas. É preciso sempre saber separar o que é factual e o que é moral.

Por fim, o Heath expõe o problema da escolha dos lados de uma correlação: dizer que A acontece ao mesmo tempo que B pode querer dizer muitas coisas. Pode ser que A cause B ou que B cause A, pode ser que ambos se reforcem ou mesmo que A e B sejam causados por qualquer evento C.

Como exemplo, considere certos comportamentos relacionados a pessoas pobres. Estatisticamente, a pobreza está relacionada a certos padrões comportamentais negativos (crimes leves, gravidez na adolescência, famílias desestruturadas, vício em drogas, violência doméstica, etc.). Alguém de direita pode afirmar que as pessoas são pobres por causa de seu comportamento, enquanto alguém de esquerda pode afirmar que o comportamento existe por que as pessoas são pobres. Ambos sentem o desejo de acreditar em A e B como causas absolutas sem considerar outras possibilidades como que a pobreza e o comportamento negativo se auto reforcem, ou que há outros eventos com que a pobreza e o padrão comportamental ocorram em conjunto.

Correlação não implica causalidade. No site Spurious Correlations, você pode observar a correlação de vários eventos, como o número de afogamentos em piscinas e o número de filmes em que Nicolas Cage aparece. É muito difícil que um evento tenha causado outro, mas ambos podem ser causados por um terceiro. Ou ser só uma coincidência.

Acrescento ainda ao exemplo do Heath, que podem haver retardos causais. Se A e B ocorrem ao mesmo tempo, pode ser que um evento anterior C tenha causado A enquanto B só está ali por coincidência. Isso vale para governos que vão bem ou mal não por suas decisões, mas por uma condição herdada. Uma composição dos dois é mais comum de acontecer.

Conclusão

A realidade pode ser compreendida em muitos níveis de complexidade. O conceito de granulação grosseira é útil para entendermos como abordagens diferentes são adequadas para diferentes níveis de complexidade. A existência de propriedades, modelos e até de linguagens diferentes em diferentes níveis de complexidade e granulação grosseira, todas compatíveis entre si devido ao fato de a realidade ser uma só, é denominada emergência.

A mente humana possui um grande filtro que limita a percepção do mundo externo. Há limitações físicas claras, como a impossibilidade de saber todos os detalhes sobre a composição mínima da matéria e toda a complexidade dos eventos físicos como há também limitações psicológicas relacionadas ao desenvolvimento evolutivo do gênero humano.

Como analogia geral, podemos partir do cenário em que a realidade é muito mais finamente granulada que nossas concepções sobre ela. Queremos enxergar a figura a, mas nossos instrumentos evolutivos só nos permitem enxergar d.

Essas limitações são essenciais à vida humana mas em situações inadequadas podem levar a erros perigosos. 

Se a reflexão sobre as causas dos problemas é fundamental para resolução desses problemas, precisamos aprender a encarar essas limitações e compensá-las se quisermos um mundo melhor.

Bônus: o que causa a causalidade?

O que causou a existência do universo? Embora a força e o poder de confusão da pergunta seja quase a de um choque elétrico, podemos extrair algo interessante dela. Primeiro ela parece supor que há uma causa para existência de tudo, e esse tudo inclui a própria lei da causalidade Que, como vimos, se encerra no demônio de Laplace. A causalidade é uma propriedade do universo. Faz sentido perguntar que causa existe fora do esquema causal? Meu pensamento é que não. O universo pode ter uma causa, mas temos que ter consciência de que nada garante isso.

Para saber mais:

[1] Sean Carroll, The Big Picture; Dutton (2016)

[2] Leonard Mlodinow, O Andar do Bêbado: Como o Acaso Determina Nossas Vidas; Zahar (2009)

Claudio Farias é físico e editor do blog Siga o Pensamento Crítico.

Author: Claudio Farias

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