É complicado – alguns lutos demoram para curar

por Marie Lundorff

É um fato trágico da vida que a maioria de nós experimentará a perda de um ente querido. Aproximadamente 50 a 55 milhões de pessoas morrem em todo o mundo a cada ano, e estima-se que cada morte deixe uma média de cinco indivíduos enlutados. A experiência da perda geralmente causa uma série de reações psicossociais, como o afastamento das atividades sociais, tristeza profunda, confusão sobre o sentido da vida e uma grande solidão. Na fase aguda do luto, esses tipos de reações costumam consumir completamente o enlutado, que sente uma dor profunda e é altamente prejudicado em sua vida pessoal. Pode parecer que o amor dirigido à pessoa falecida repentinamente perde seu objetivo inicial, deixando o indivíduo enlutado com um sentimento de intenso vazio.

Felizmente, a longo prazo, a maioria das pessoas, na maioria das vezes, tem recursos suficientes para se adaptar à nova vida sem a pessoa amada que se foi. Eles não necessariamente superam sua perda, mas aprendem a lidar com ela. Infelizmente, porém, isso não é verdade para todos. Um acúmulo de pesquisas na psiquiatria e na psicologia mostrou que uma minoria significativa de pessoas – aproximadamente uma em cada 10 – não se recupera do sofrimento. Em vez disso, a reação aguda persiste a longo prazo, levando a problemas sociais, mentais e físicos.

A distinção entre a reação mais típica e a mais problemática do luto pode ser ilustrada através de uma analogia. Da mesma forma que uma ferida no corpo normalmente se cura por si própria, mesmo que de forma dolorosa e lenta, a maioria das pessoas se recupera de sua dor sem ajuda especializada. No entanto, ocasionalmente, a ferida inflama e então usamos pomadas, cremes e curativos para ajudar no processo de cicatrização. Da forma similar, às vezes podem surgir complicações no processo de luto, de forma que uma ajuda adicional é necessária para tratar tal luto ‘inflamado’, ou “luto complicado”.

Uma intrincada mistura de fatores individuais e contextuais pode levar a complicações no processo de luto. Imagine Amy, uma mulher de 50 e poucos anos vivendo uma vida tranquila com seu marido e dois filhos adolescentes. Enquanto sai para correr, o marido sofre um ataque cardíaco repentino e cai no chão. Ele recebe massagem cardíaca de um passante, mas é declarado morto no hospital poucas horas depois. Essa experiência hipotética pode gerar diferentes formas de luto para Amy. Em um cenário, vemos uma Amy profundamente afetada pela perda do marido no período mais agudo do luto. Ela usa uma quantidade imensa de tempo e energia para preparar o funeral, separar os pertences de seu falecido marido e se ajustar à nova vida de viúva. Seu local de trabalho é muito compreensivo com sua situação, e tanto seus colegas quanto seu supervisor a apoiam e se organizam para ajudar em suas obrigações durante sua ausência. Ela trabalha duro para colocar sua vida de volta aos trilhos com objetivo de dar aos filhos uma infância feliz. Cinco anos após sua perda, ela está altamente envolvida em uma organização que trabalha com a prevenção de doenças cardíacas. Ela ainda sente muita falta do marido, mas é grata pelos anos que passaram juntos.

O ditado “o tempo cura todas as feridas” está apenas parcialmente correto porque, para feridas gravemente inflamadas, o tempo não é a solução. É necessário consultar um médico e receber tratamento especializado para auxiliar o processo de cicatrização.

Por outro lado, o choque e o trauma da morte do marido podem levar Amy a um caminho diferente: ela luta para aceitar a perda do marido e, mesmo anos após sua morte, ainda mantém todos os seus pertences intocados; seus empregadores são antipáticos e ela perde o emprego devido aos muitos dias em que o luto afeta sua vida e à diminuição de seu desempenho no trabalho; seu contínuo sofrimento e falta de energia levam seus amigos e parentes a se afastarem. Nesse cenário, Amy é incapaz de atender às demandas de seus filhos, provocando solidão, frustração e sentimento de culpa; ela não mostra interesse pelo mundo exterior e é dominada por uma tristeza intensa que não diminui com o tempo.

Esses contrastantes cenários hipotéticos ilustram como a suscetibilidade às complicações relacionadas ao luto podem variar dependendo de fatores-chave (por exemplo, nível de apoio social, escolha de enfrentamento pessoal, conquista de novos interesses após a perda). Se uma pessoa em luto agudo não recebe apoio adequado, certas consequências adversas podem se desenvolver, com um aumento do risco de problemas graves de saúde, qualidade de vida prejudicada etc.

Pesquisas que atestam a existência de um luto persistente, juntamente com seus efeitos adversos, levaram a Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2018 a decidir incluir um diagnóstico específico para o luto em suas diretrizes de classificação para transtornos mentais, conhecidas como CID-11 (Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão), que será totalmente implementada nos sistemas de saúde até 2022. O novo diagnóstico, denominado ‘distúrbio prolongado de luto’, caracteriza-se por uma intensa falta, ou uma preocupação persistente com o falecido, acompanhado por intenso estresse emocional, (como culpa, negação, raiva, dificuldade em aceitar a morte, sentir que perdeu parte de si), juntamente com uma existência altamente prejudicada pelo ocorrido a persistir além de meio ano após a perda.

À medida que a CID-11 começar a ser implementada nos próximos anos, é necessário disseminar informações sobre os critérios para o diagnóstico do transtorno de luto prolongado aos profissionais de saúde que estão em contato com indivíduos enlutados em hospitais, hospícios, unidades de terapia intensiva e clínicos em geral, para ajudá-los a identificar e oferecer apoio adequado àqueles que precisam. Infelizmente, as manchetes da mídia sobre o novo “diagnóstico de luto” podem implicar que o distúrbio prolongado de luto considere todos os tipos de reações de luto como patológicas. Isso é bastante prejudicial, pois pode fazer com que algumas pessoas ocultem ou evitem demonstrar tal sofrimento na tentativa de não receberem um diagnóstico. Além disso, intervenções preventivas direcionadas a reações normais de luto podem ser ineficazes e até mesmo contraindicadas, o que torna vital que o luto prolongado não seja diagnosticado de forma incorreta.

As diretrizes de diagnóstico desenvolvidas pela OMS são usadas por psiquiatras e psicólogos em todo o mundo, e a adição oficial do sofrimento prolongado como um distúrbio mental tem várias implicações práticas. Anteriormente, os sintomas do distúrbio prolongado de luto eram frequentemente interpretados como sinais de depressão e tratados com antidepressivos, mas esses tipos de drogas mostraram efeito mínimo na melhora dos sintomas do luto. Espera-se que o reconhecimento do distúrbio prolongado de luto como um fenômeno distinto da depressão garanta o uso apropriado de tratamentos psicossociais mais eficazes.

Tais abordagens incluem elementos de psicoeducação: informar ao enlutado das versões saudáveis ​​e das mais patológicas do luto e discutir objetivos terapêuticos. As pessoas que sofrem do “luto complicado” geralmente evitam pessoas, situações ou objetos que os lembrem de suas perdas; portanto, algum tipo de exposição costuma ser usado. A exposição pode incluir recontar a história da perda ou identificar memórias particularmente perturbadoras que a pessoa tende a evitar, e então revisitar gradualmente essas memórias no tratamento e entre suas sessões. Os estágios finais da terapia geralmente são voltados para o futuro, trabalhando para a retomada da vida sem o falecido. Esse elemento enfatiza o estabelecimento e a manutenção de um vínculo saudável com o falecido, o que inclui a aceitação de que a vida continua e uma ajuda direcionada para que o enlutado possa se envolver em novos e significativos relacionamentos.

O ditado “o tempo cura todas as feridas” está apenas parcialmente correto porque, para feridas gravemente inflamadas, o tempo não é a solução. É necessário consultar um médico e receber tratamento especializado para auxiliar o processo de cicatrização. Indivíduos enlutados que enfrentam complicações em seu processo de luto geralmente descrevem sua situação como extremamente entorpecente, esmagadora e debilitante. Como mostrado no caso de Amy, a rede de amigos e conhecidos do enlutado é um fator crucial. Enquanto uma rede de compreensão e apoio pode atuar como um fator protetor contra o distúrbio prolongado de luto, o afastamento de amigos e familiares pode criar isolamento social e aumentar sentimentos de falta de sentido, contribuindo para o desenvolvimento do distúrbio prolongado de luto. É essencial saber que a ajuda profissional está disponível. Se você ler isso e reconhecer os sintomas do distúrbio prolongado de luto em alguém que conhece – ou talvez em si mesmo – procure apoio profissional, porque o tempo não cura tudo sozinho.

Marie Lundorff é estudante de doutorado no departamento de psicologia e ciências comportamentais na Aarhus University, Dinamarca.

Traduzido por João Paulo Morais

Texto original publicado em aeon.co, com licença para tradução e redistribuição. Para maiores informações sobre direitos autorais do texto original, aeon.co/republish.

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Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

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