Os seres humanos são feitos para descartar fatos que não se encaixam em sua visão de mundo

por Adrian Bardon em theconversation.com

Há algo de pobre na vida política norte-americana. Os EUA (entre outras nações) encontram-se cada vez mais caracterizados por comunidades ideológicas altamente polarizadas e isoladas em ilhas de informações que ocupam seus próprios universos factuais.

Dentro da blogosfera política conservadora, o aquecimento global é uma farsa ou é tão incerto que é indigno de resposta. Em outras comunidades geográficas ou on-line, vacinas, água com flúor e alimentos geneticamente modificados são perigosos. Os meios de comunicação de direita pintam uma imagem detalhada de como Donald Trump é vítima de uma conspiração fabricada.

Nada disso está correto, no entanto. A realidade do aquecimento global causado pelo homem é uma ciência estabelecida. A alegada ligação entre vacinas e autismo foi desmascarada de maneira tão conclusiva quanto qualquer outro fato na história da epidemiologia. E é fácil encontrar desculpas “qualificadas” acerca da atuação de Donald Trump em relação à Ucrânia e muitas outras questões.

No entanto, muitas pessoas instruídas negam com sinceridade conclusões baseadas em evidências acerca desses assuntos.

Em teoria, a resolução de disputas factuais deveria ser relativamente fácil: bastaria apresentar as evidências de um forte consenso entre especialistas. Essa abordagem é bem-sucedida na maioria das vezes, quando o problema é, digamos, o peso atômico do hidrogênio.

Mas as coisas não funcionam dessa maneira quando o consenso científico apresenta uma imagem que ameaça a visão de mundo ideológica de alguém. Na prática, verifica-se que a identidade política, religiosa ou étnica prevê com bastante eficácia a disposição de aceitar (ou não) conhecimentos sobre qualquer questão politizada.

Raciocínio motivado” é como os cientistas sociais chamam o processo de decidir que evidências aceitar (ou negar) com base na conclusão que se prefere alcançar. Como explico em meu livro “A verdade sobre a negação”, essa tendência muito humana se aplica a todos os tipos de fatos sobre o mundo físico, a história econômica e os eventos atuais.

A negação não deriva da ignorância

O estudo interdisciplinar desse fenômeno tem sido enorme nos últimos seis ou sete anos,  e uma coisa ficou clara: o fracasso de vários grupos em reconhecer a verdade sobre, digamos, as mudanças climáticas, não é explicado pela falta de informações sobre o consenso científico no assunto.

Em vez disso, o que prediz fortemente a negação de muitos tópicos controversos é simplesmente a persuasão política.

Um meta estudo de 2015 mostrou que a polarização ideológica sobre a realidade das mudanças climáticas na verdade cresce com o conhecimento dos entrevistados sobre política, ciência e/ou política energética. As chances de um conservador ser um negacionista da mudança climática são significativamente maiores se ele ou ela tiver formação superior. Os conservadores com a pontuação mais alta nos testes de sofisticação cognitiva ou habilidades de raciocínio quantitativo são mais suscetíveis ao “raciocínio motivado” quando aplicado nas questões climáticas.

O próprio “senso de si” de um ser humano está intimamente ligado ao status e as crenças de seu grupo identitário. Não surpreende, portanto, que as pessoas respondam automática e defensivamente às informações que ameaçam sua visão ideológica de mundo.

Este não é apenas um problema para os conservadores. Como o pesquisador Dan Kahan demonstrou, é menos provável que um liberal (NT: liberais, nos EUA, são os eleitores mais à esquerda no espectro político) aceite um consenso de especialistas sobre a possibilidade de armazenamento seguro de lixo nuclear ou sobre os efeitos das leis de armas de porte oculto.


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A negação é natural

Nossos ancestrais evoluíram em pequenos grupos, onde cooperação e persuasão tinham tanto a ver com o sucesso reprodutivo quanto sustentar crenças factuais precisas acerca do mundo. A assimilação na tribo por alguém exigia a assimilação do sistema de crenças ideológicas do grupo, de forma que um preconceito instintivo a favor do “grupo” e de sua visão de mundo está profundamente arraigado na psicologia humana.

O próprio “senso de si” de um ser humano está intimamente ligado ao status e as crenças de seu grupo identitário. Não surpreende, portanto, que as pessoas respondam automática e defensivamente às informações que ameaçam sua visão ideológica de mundo. Respondemos com racionalização e avaliação seletiva de evidências – ou seja, nos envolvemos em “viés de confirmação”, dando crédito ao testemunho de especialistas que gostamos e encontrando razões para rejeitar os outros (que não gostamos).

Último livro do professor Bardon, The Truth About Denial, Oxford University Press

Os cientistas políticos Charles Taber e Milton Lodge confirmaram experimentalmente a existência dessa resposta automática. Eles descobriram que assuntos partidários, quando apresentados com fotos de políticos, produzem uma resposta afetiva de “gostar/não gostar” que precede qualquer tipo de avaliação consciente e factual sobre quem é retratado.

Em situações ideológicas, os preconceitos acabam afetando nossas crenças factuais. Na medida em que você se define em termos de suas afiliações culturais, informações que ameaçam seu sistema de crenças – digamos, informações sobre os efeitos negativos da produção industrial sobre o meio ambiente – podem ameaçar seu próprio senso de identidade.

Se faz parte da visão de mundo da sua comunidade ideológica que coisas não naturais são prejudiciais à saúde, informações factuais sobre um consenso científico acerca de vacinas ou segurança alimentar de organismos modificados parecem para você como um ataque pessoal.

Informações indesejadas também podem ameaçar você de outras maneiras. Teóricos da “justificação do sistema”, como o psicólogo John Jost, mostraram como situações que representam uma ameaça aos sistemas estabelecidos desencadeiam pensamentos inflexíveis e um desejo de reclusão. Por exemplo, como Jost e colegas estudaram extensivamente, as populações que sofrem de dificuldades econômicas ou de ameaças externas frequentemente se voltam para líderes hierárquicos e autoritários que prometem segurança e estabilidade.

A negação está em toda parte

Esse tipo de “pensamento motivado”, carregado de sentimentos, explica uma ampla gama de exemplos de uma rejeição extrema e resistente às evidências de fatos históricos e consensos científicos.

Quando interesses, credos ou dogmas de grupos são ameaçados por informações factuais indesejadas, o pensamento tendencioso torna-se negação. E, infelizmente, esses fatos sobre a natureza humana podem ser manipulados para fins políticos.

Foi demonstrado que os cortes de impostos se pagam em termos de crescimento econômico? As comunidades com grande número de imigrantes têm taxas mais altas de crimes violentos? A Rússia interferiu nas eleições presidenciais dos EUA em 2016? Previsivelmente, a opinião de especialistas em tais assuntos é tratada pela mídia partidária como se a evidência fosse ela própria inerentemente partidária.

Os fenômenos negacionistas são muitos e variados, mas a história por trás deles é, em última análise, bastante simples. A cognição humana é inseparável das respostas emocionais inconscientes que a acompanham.

Sob as condições certas, traços humanos universais, como favoritismo de seu grupo, ansiedade existencial e um desejo de estabilidade e controle, combinam-se em uma política de identidade tóxica e justificativa para o sistema.

Quando interesses, credos ou dogmas de grupos são ameaçados por informações factuais indesejadas, o pensamento tendencioso torna-se negação. E, infelizmente, esses fatos sobre a natureza humana podem ser manipulados para fins políticos.

Essa imagem é um pouco sombria, porque sugere que os fatos por si só têm poder limitado para resolver questões politizadas, como a mudança climática ou a política de imigração. Mas entender corretamente o fenômeno da negação é certamente um primeiro passo crucial para resolvê-lo.

Adrian Bardon é professor de filosofia na Wake Forest University e autor de livros como The Truth About Denial e A Brief History of the Philosophy of Time.

Traduzido por João Paulo Morais

Artigo originalmente publicado em inglês no site theconversation.com. Traduzido com permissão do autor.

Fotografia por David Matos via Unsplash

The Conversation

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

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