Humildade e dúvida são características de um bom terapeuta

por Helene A Nissen-Lie, em aeon.co

“O grande problema do mundo é que os tolos e fanáticos estão sempre certos de si, enquanto os mais sábios estão repletos de dúvidas.” Esse fenômeno – observado na década de 1930 pelo filósofo inglês Bertrand Russell – tem um nome técnico: o efeito Dunning-Krüger. Refere-se à tendência de as pessoas com os piores desempenhos superestimarem seu desempenho, enquanto os de melhor desempenho subestimam os seus. O paradoxo de Dunning-Krüger foi encontrado em ambientes acadêmicos e empresariais, mas agora devemos nos perguntar: e no contexto da psicoterapia? É melhor ter um terapeuta confiante ou alguém com dúvidas?

Infelizmente, a autoavaliação dos psicoterapeutas também é tendenciosa. Quando solicitados a classificar seus próprios desempenhos na psicoterapia, os terapeutas tendem a se superestimar. Além disso, como mostrou um estudo, o excesso de confiança é mais típico naqueles terapeutas classificados como menos competentes por um avaliador independente. Por outro lado, outros estudos descobriram que são os terapeutas que se avaliam mais negativamente que em geral são considerados os mais competentes por especialistas independentes.

Inspirado por essas descobertas, um estudo alemão recente comparou as estimativas de melhora dos pacientes por um terapeuta com a melhoria real de seus clientes durante a terapia. Os resultados fornecem a evidência mais convincente de que a humildade é uma virtude terapêutica, ao menos até o momento. Quanto mais modesta ou conservadora a estimativa de um terapeuta acerca do progresso de seus clientes (em relação à melhoria real deles), mais os sintomas de seus clientes diminuíam e sua qualidade de vida aumentava.

O que tudo isso significa? No momento em que as pessoas tendem a pensar que seu valor se baseia em quão confiantes estão e que devem “vender-se” em todas as situações, a descoberta de que a humildade do terapeuta é uma virtude subestimada e um ingrediente paradoxal da experiência pode ser um alívio.

Tais descobertas ajudam a explicar o resultado de uma série de estudos de psicoterapia naturalista que meus colegas e eu realizamos recentemente, nas quais avaliamos a contribuição de uma gama de variáveis ​​do terapeuta para os resultados da terapia. Uma descoberta em particular se destacou: os terapeutas com pontuações mais altas em dúvidas profissionais (por exemplo, eles não tinham tanta confiança de que poderiam ter efeitos benéficos sobre seus clientes e se sentiam inseguros acerca da melhor maneira de lidar eficazmente com um cliente) tenderam a receber classificações mais positivas de seus clientes em termos de uma aliança terapêutica (isto é, a qualidade do relacionamento entre terapeuta e cliente) e os resultados da terapia. Essa descoberta nos surpreendeu a princípio. Acreditávamos que menos (e não mais) dúvidas traria mais benefícios para o cliente. No entanto, o resultado faz todo sentido à luz das pesquisas anteriores que mostram os benefícios da humildade do terapeuta nos resultados da terapia.

A disposição de ouvir o outro provavelmente é o ponto central para explicar o porquê a humildade é benéfica. Uma atitude humilde também pode ser necessária para que os terapeutas estejam abertos ao feedback sobre o progresso real de seus clientes, em vez de apenas supor que tudo está indo bem ou culpar o cliente pela falta de progresso. A humildade também pode dar aos terapeutas a disposição de se autocorrigir quando necessário, e motivá-los a se envolver em uma espécie de “prática deliberada” (que visa melhorar suas próprias habilidades com base no monitoramento cuidadoso de seu desempenho e no fornecimento de feedback por parte do cliente).

“A humildade pode parecer o oposto da experiência, mas argumentamos que essa humildade é fundamental [para alcançar a excelência clínica].” Tomadas em conjunto, as crescentes evidências do benefício da humildade do terapeuta apoiam a observação do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, que escreveu em 1859 que “toda a verdadeira ajuda começa com a humildade”.

Referindo-se a suas próprias descobertas, bem como pesquisas sobre “especialistas em terapia” (terapeutas classificados como especialmente competentes por seus pares), Michael Helge Rønnestad, da Universidade de Oslo, e Thomas Skovholt, da Universidade de Minnesota – ambos especialistas no desenvolvimento de psicoterapeutas – resumiram assim em seu livro The Developing Practitioner: Growth and Stagnation of Therapists and Counsellors (2013): “Muitos estudos indicam que a humildade parece ser uma característica dos especialistas terapêuticos”.


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Outra evidência da importância da humildade do terapeuta vem de pesquisas sobre a “humildade cultural” dos terapeutas. Adotar uma abordagem culturalmente humilde significa manter uma postura de curiosidade, sem julgar, e sensível ao que a identidade cultural dos clientes significa para eles (tais como etnia, religião, fé, orientação sexual ou de gênero) e então inseri-la no trabalho terapêutico. Há um crescente corpo de evidências que vincula a humildade cultural à eficácia terapêutica, com clientes que veem seus terapeutas como mais culturalmente humildes tendendo a alcançar os melhores resultados.

Será a humildade um componente paradoxal da experiência? Na verdade, não: um especialista é, antes de tudo, aquele que continua aprendendo – e isso parece se aplicar tanto aos psicoterapeutas quanto a outras profissões. Como Joshua Hook, psicólogo da Universidade do Norte do Texas e co-autor de Cultural Humility (2017), e seus colegas afirmaram recentemente: “A humildade pode parecer o oposto da experiência, mas argumentamos que essa humildade é fundamental [para alcançar a excelência clínica].” Tomadas em conjunto, as crescentes evidências do benefício da humildade do terapeuta apoiam a observação do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, que escreveu em 1859 que “toda a verdadeira ajuda começa com a humildade”.

No entanto, a humildade do terapeuta por si só não é suficiente para que a terapia seja eficaz. Em nosso estudo mais recente, avaliamos também a performance do terapeuta por outro critério: o quanto o terapeuta se trata de maneira gentil e bondosa em sua vida pessoal, ou seja, sua “auto-afiliação”. Previmos que o nível de auto-afiliação pessoal dos terapeutas aumentaria o efeito que a dúvida profissional teria sobre a eficiência terapêutica no paciente.

Nossa hipótese foi apoiada: os terapeutas que relataram mais dúvidas em seu trabalho aliviam mais o sofrimento do cliente se eles também relatam ser gentis consigo mesmos fora do trabalho (em contraste, os terapeutas que duvidam menos de si, porém mantêm uma alta auto-afiliação, contribuem menos para a mudança no cliente).

Interpretamos essa descoberta como sugerindo que uma postura autocrítica benigna em um terapeuta é benéfica, mas que o autocuidado e o perdão sem um autocrítica reflexiva não é benéfico. A combinação de auto-afiliação e dúvida profissional parece abrir caminho para uma atitude aberta e auto-reflexiva, permitindo aos psicoterapeutas respeitarem a complexidade de seu trabalho e, quando necessário, corrigir o curso terapêutico para ajudar os clientes de maneira mais eficaz.

O que tudo isso significa? No momento em que as pessoas tendem a pensar que seu valor se baseia em quão confiantes estão e que devem “vender-se” em todas as situações, a descoberta de que a humildade do terapeuta é uma virtude subestimada e um ingrediente paradoxal da experiência pode ser um alívio. Tais descobertas sobre a importância da humildade ressoaram bem com os terapeutas, muitos dos quais sempre foram céticos em relação aos profissionais excessivamente confiantes em sua terapia e em outros campos.

Agora precisamos incorporar a mensagem de que a humildade é uma qualidade importante do terapeuta em seu treinamento e em sua supervisão. Parte disso deve envolver uma mudança cultural, para que terapeutas qualificados possam agir como modelos de humildade para com seus clientes e estudantes, sem medo de “perder o respeito” ou a autoridade.


Helene A Nissen-Lie é professora associada de psicologia clinica na Universidade de Oslo, Noruega.

Traduzido por João Paulo Morais

Texto original publicado em aeon.co, contendo links para as referências. Livre para republicação. Para maiores informações sobre direitos autorais do texto original, aeon.co/republish.

Foto por Nik Shuliahin via Unsplash

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

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