A internet é uma força da natureza, e é nosso dever civilizá-la.

por Jason Dorrier, via singularityhub.com

Estamos muito longe daqueles felizes dias do início da Internet, quando a promessa de uma rede descentralizada de comunicações digitais significava que qualquer um poderia conversar com qualquer outro sem apelar para intermediários. O conhecimento seria liberado das redes elitistas e dos velhos e pesados livros enciclopédicos: “A informação quer ser livre”, era o slogan do dia.

Desde então, aprendemos que as informações “gratuitas” têm um preço.

Vamos avançar rapidamente para 2019, quando um livro do autor de ficção científica Neal Stephenson, chamado Fall; or Dodge in Hell, traçou um futuro imaginário no qual a internet é apelidada de “Miasma”. Os ricos e pobres são então separados por quem pode pagar “editores” humanos que agem como “curadores” da internet, filtrando o lixo e protegendo os interesses, identidades e informações de seus empregadores. Há aqueles privilegiados o suficiente para “flutuar” acima do barulho e do lixo, mergulhando seletivamente em busca de informações confiáveis, em detrimento daqueles que se afogam e ficam enlouquecidos pela massa de desinformação e propaganda escondidas abaixo.

A ficção científica costuma refletir o momento cultural atual tanto quanto tentar prever o futuro, e a visão de Stephenson extrapola e intensifica os desafios de hoje, de maneira plausível o suficiente para ser perturbadora.

Para onde está indo tudo isso? Ainda podemos mudar as coisas e recuperar o sonho inicial da internet?

Em uma palestra intitulada “E se a Internet estivesse segura?”, na Cúpula Global da Singularity University, em São Francisco, Doc Searls, editor-chefe do Linux Journal, e Richard Whitt, presidente da GLIA Foundation e fundador da GLIAnet, tentaram dar uma resposta.

O mundo natural não é seguro e não há muito que possamos fazer para mudar isso. Em vez disso, nos adaptamos à natureza com tecnologias como roupas e abrigo, que fornecem proteção contra os elementos naturais.

Segundo Searls, precisamos melhorar nossas questões acerca do mundo on-line. Perguntar como tornar a internet segura é como perguntar como tornar a gravidade segura, disse ele. “A internet é elementar. É um gênio que não vai voltar para a garrafa”. Não podemos tornar a internet mais segura do que a gravidade; portanto, é nosso trabalho civilizá-la.

A vida na selva

Whitt, ex-funcionário da Google, sugeriu que a situação atual, na qual reinam a falta de confiança e a falta de prestação de contas, foi provocada por quatro causas principais, a maioria delas bem familiar.

Efeitos de rede. Todo mundo queria estar no Facebook porque seus amigos estavam lá. Quanto mais pessoas havia dentro, maior o medo de perder a onda e ficar do lado de fora. Todos entraram lá, até a empresa capturar uma fração significativa da população mundial em seus produtos. As pesquisas do Google melhoraram quanto mais pessoas a usavam, e quanto mais ela melhorava, mais usuários ela atraía. Esses efeitos proporcionaram um rápido crescimento e um domínio pelos gigantes da internet de hoje.

Entradas da Web. Os usuários produzem continuamente dados comportamentais (conscientes disso ou não) que traçam um perfil de quem eles são, o que gostam e o que não gostam. Os usuários também criam livremente conteúdo que atrai outros usuários ou pode ser utilizado para obter dados. Ou seja, os usuários fornecem as entradas e saídas que impulsionam os negócios.

A economia da atenção. Uma plataforma saudável é uma plataforma abastecida com usuários altamente engajados. As empresas estão constantemente buscando o próximo clique e tentando descobrir como garantir que os usuários permaneçam por perto. Um forte envolvimento é impulsionado pela emoção – alegria, mas também raiva e medo – o que levou a alguns dos “problemas sociais perniciosos com os quais ainda estamos lidando”.

Dinâmica de plataforma. As plataformas digitais ainda são um tipo de negócio relativamente recentes – e potentes. Nas últimas duas décadas, os economistas mostraram que os negócios das plataformas digitais são altamente poderosos, de uma maneira que os modelos antigos e mais familiares não conseguem igualar.

Mas simplesmente atrair um bilhão de usuários para uma plataforma não é um negócio. O Google descobriu que eles poderiam unir anúncios com pesquisas já em 2002, e o Facebook seguiu o exemplo, assim como muitos outros. É essa interação “auto-reforçadora” dessas tendências e práticas, juntamente com os incentivos ao modelo de negócios baseado em anúncios, que resultaram em alguns dos indesejáveis resultados que vemos hoje.

Isso não significa que estamos presos ao sistema que criamos. “Tudo isso é muito novo no desenvolvimento dessa tecnologia, e eu gostaria de dizer que há um amplo espaço para dizermos, você sabe, que queremos mudar um pouco o curso e fazer algo diferente”, disse Whitt.


Assine nossa newsletter e junte-se à outros 5 assinantes.

Mantemos seus dados privados e os compartilhamos apenas com terceiros que tornam esse serviço possível. Veja nossa Política de Privacidade para mais informações.


Tomar o controle de volta

Se o poder está nas plataformas hoje em dia, a solução pode ser inverter essa dinâmica. Usuários são como objetos dos quais os dados são extraídos e analisados ​​no modelo atual. Um modelo mais amigável veria as pessoas como clientes que merecem atenção.

Como Whitt escreveu em um artigo da Fast Company, “… e se os usuários tivessem o mesmo poder que as plataformas? E se os usuários tivessem “algo” defendendo-os – como um arsenal de ferramentas sofisticados o suficiente para eliminar anúncios invasivos, proteger seus dados pessoais e negociar ferozmente com as plataformas?”

O Projeto GLIAnet da Whitt visa construir um ecossistema de tais ferramentas.

Um componente que pode permitir essa nova agência seria o desenvolvimento de IAs (Inteligências artificiais) pessoais que atuam em nosso nome, em oposição às IAs de plataformas, como a Alexa ou Google Assistant, que coletam nossos dados, armazenam as informações em seus servidores e as compartilham com fornecedores. Essas IAs pessoais seriam como “enviados virtuais” que interagiriam e negociariam com as IAs das plataformas digitais.

Além disso, nossos perfis on-line – quais sites visitamos ou o que compramos – não seriam mais gratuitos, mas armazenados localmente. Esses perfis e os dados poderiam ser compartilhados de maneira muito mais seletiva (em parte ou no todo) em troca de serviços fornecidos.

Algumas ferramentas dessas já existem, como bloqueadores de anúncios e VPNs, mas nem sempre são fáceis de configurar e usar, além de serem independentes – o Projeto GLIAnet espera reunir tudo isso e fornecer, em um ambiente mais amigável, um ecossistema mais abrangente de defesa que funcionaria mais ou menos como um “plug-and-play”.

Com seu projeto, Customer Commons, Searls também trabalha para mudar a dinâmica do poder.

Todos os aplicativos e serviços online nos quais você se inscreve exigem que você concorde com seus termos de serviço. Pense nas centenas de contratos nos quais você automaticamente marcou a caixa “concordo” ao longo dos anos. Esses acordos são longos, legais e variáveis; ninguém lê aquelas letrinhas pequenas. A maioria não tem o conhecimento necessário para entender todas as implicações legais, mesmo que os lessem.

E se, em vez de os termos nos serem apresentados, apresentássemos nossos próprios termos às empresas? “Você pode me mostrar anúncios, mas não personalizados e não me seguir com esses anúncios; estes são os meus termos. Se você concordar com eles, utilizarei com satisfação o seu serviço”. Então você tem um conjunto de termos que você entende, porque os define, e nunca precisará marcar outra caixa de “concordo” novamente.

Volta à terra firme

Não se trata de tornar a internet segura ou encontrar os regulamentos perfeitos. Trata-se de encarar a internet em sua face real e inventar as ferramentas necessárias para morar lá mais confortavelmente.

O mundo natural não é seguro e não há muito que possamos fazer para mudar isso. Em vez disso, nos adaptamos à natureza com tecnologias como roupas e abrigo, que fornecem proteção contra os elementos naturais. Agora vivemos em quase todos os climas e, em vez de estarmos constantemente ameaçados pelo mundo natural, desfrutamos e encontramos inspiração na natureza.

Por que não aplicar essa abordagem também à internet?


Jason Dorrier é editor-gerente do Singularity Hub. Ele pesquisou e escreveu sobre finanças e economia antes de passar para ciência e tecnologia.

Tradução de João Paulo Morais

O artigo original encontra-se publicado em singularity.com, com licença CC BY-ND 4.0. A republicação desta tradução é permitida, desde que citando fonte e atribuindo link para a mesma.

Fotografia por Markus Spiske via Unsplash

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *