Para uma criança, sentir-se despreocupada é necessário para seu bem-estar

por Luara Ferracioli, via aeon.co

Algumas pessoas têm a sorte de olhar para a infância com carinho, como um tempo em sua vida sem muito estresse ou ansiedade. Lembram-se das longas horas passadas no quintal sem preocupações, ou perseguindo projetos e relacionamentos sem apreensão ou medo. Tais tenras lembranças encontram-se frequentemente em forte contraste com a vida que muitos levam quando adultos, onde o estresse e a ansiedade parecem predominar.

O fato de muitos adultos se esforçarem para se sentir menos preocupados enquanto adultos levanta uma série de questões interessantes sobre a relação entre despreocupação e o bem-estar. Será que ser despreocupado é um bem especial apenas da infância? Será algo que dá sentido à vida de uma criança, sem fazer o mesmo efeito para com os adultos? Ou os adultos precisam ser mais despreocupados e mais parecidos com crianças, para que suas vidas corram bem? Mais importante, se sentir-se despreocupado é de fato uma condição prévia necessária para uma vida boa, por que exatamente isso ocorre?

Como mãe de dois filhos pequenos e alguém que trabalha com filosofia da família, recentemente voltei minha atenção para a questão do que significa para a infância que tudo “corra bem” para uma criança. Pensando nos benefícios do amor e da educação por parte dos pais, percebi que há algo de especial nessa despreocupação infantil que o torna um componente necessário de uma infância bem vivida. No entanto, quando se trata de adultos, descobri que alguns podem levar vidas maravilhosas e significativas sem sentirem essa mesma despreocupação.

Essa assimetria entre a infância e a idade adulta é resultado de crianças e adultos serem diferentes tipos de criaturas. Ao contrário de um adulto, uma criança não tem autoridade para endossar os bens valiosos de sua vida, caso faltem emoções positivas em relação a tais bens. Isso significa que se uma criança estiver enfrentando estresse e ansiedade, ela não terá o espaço mental necessário para que emoções positivas se voltem para projetos e relacionamentos valiosos. Como resultado, a criança estará em uma posição em que esses projetos e relacionamentos não contam como bens constitutivos.


Assine nossa newsletter e junte-se à outros 5 assinantes.

Mantemos seus dados privados e os compartilhamos apenas com terceiros que tornam esse serviço possível. Veja nossa Política de Privacidade para mais informações.


Para ver por que a vida das crianças é necessariamente empobrecida se elas não se sentem despreocupadas, quando o mesmo não ocorre com os adultos, primeiro precisamos esclarecer nossas definições: o que estamos a definir como criança, o que significa essa despreocupação e o que significa que uma vida esteja “indo bem”? Uma criança é uma criatura que já começou a desenvolver habilidades práticas de raciocínio, mas não as desenvolveu de tal maneira que possa assumir os direitos e as responsabilidades da vida adulta. Por despreocupação, refiro-me à uma disposição para não se sentir estressado e ansioso, mesmo que haja momentos na vida de uma pessoa em que essas emoções negativas estejam presentes. Uma pessoa despreocupada é, portanto, alguém que não experimenta estresse e ansiedade com muita frequência, como resultado de sua psicologia e de suas circunstâncias pessoais.

Finalmente, ao pensar sobre o que significa para as pessoas terem uma vida boa, me apoio nas chamadas “contas híbridas do bem-estar”: uma vida boa é aquela em que uma pessoa se envolve em projetos e relacionamentos valiosos e os considera atraentes. Por exemplo, a filosofia contribuirá para que eu leve uma vida boa se for verdade que a filosofia é valiosa (onde seu valor não é uma função das minhas atitudes, mas algo mais interno à filosofia), e se ocorre que eu apoie a filosofia como uma profissão. Em um mundo em que a filosofia seja uma empresa profundamente equivocada em que eu preferiria fazer outra coisa com o meu tempo, a filosofia deixa de contribuir para que eu leva uma “vida boa”.

Tais definições são suficientes. A questão que devemos agora abordar é: como a despreocupação é necessária para uma boa infância sem ser necessária para uma boa vida na idade adulta?

Vamos começar pelos adultos. Ao contrário das crianças, os adultos podem apreciar os valiosos projetos e relacionamentos que ocorrem em suas vidas, mesmo na falta de emoções positivas. Isso ocorre porque os adultos são o tipo de criatura que podem endossar muitos aspectos de suas vidas unicamente devido ao quão bem eles se encaixam em sua concepção geral do que vale a pena na vida. Uma autora neurótica que escreve romances brilhantes, apesar de achar o processo doloroso, ainda pode endossar o projeto de escrever sob estresse e ansiedade, porque sabe que essas emoções negativas tornarão o trabalho mais profundo do que seria de outra forma. Um neurocirurgião que opera com os piores tipos de câncer sabe que os riscos e deveres de seu trabalho são altos demais para que ele possa encarar a vida de uma maneira totalmente despreocupada. Tal pessoa está disposta a trocar essa despreocupação por uma vida de realizações dentro da medicina.

De fato, podemos avaliar a vida dos adultos que não se sentem despreocupados como uma vida valiosa precisamente porque sabemos que as capacidades avaliativas mais complexas de um adulto (por exemplo, a autorreflexão; aquisição de conhecimento moral relevante; manter um senso de tempo adequado; reconhecer custos, riscos e oportunidades associados a determinadas ações, etc.) permitem que ele endosse projetos e relacionamentos valiosos, mesmo quando tais projetos estejam associados com emoções negativas.

O mesmo não se aplica às crianças. Embora elas também precisem, de alguma forma, endossar seus projetos e relacionamentos para que tais se qualifiquem como contribuições para seu bem-estar, tal endosso surge quando as crianças sentem emoções positivas em relação a esses projetos e relacionamentos. As crianças simplesmente não possuem as capacidades avaliativas necessárias para que possam endossar projetos e relacionamentos valiosos, apenas devido ao quão bem tais projetos se encaixam em um plano de vida mais geral.

Uma criança que se voluntaria para cuidar de um parente com demência por algumas horas por dia não pode autoritariamente aprovar esse projeto se sentir-se estressada com ele. Ao contrário do escritor ou do médico que pode dar um passo atrás para avaliar como os projetos estressantes se encaixam em sua concepção geral de uma “vida boa” e então apoiá-los com autoridade, as capacidades avaliativas de uma criança não são suficientemente maduras e desenvolvidas para que ela faça o mesmo. Ela é, portanto, incapaz de avaliar essas obrigações de assistência em um contexto de autoconhecimento adequado ou senso realista de opções concorrentes, pois não possui nível suficiente de conhecimento moral e entendimento adequado dos custos, riscos e oportunidades envolvidos.

É por isso que ela pode acabar, digamos, cometendo um erro sobre o que a “moralidade” exige. Ela pode também não ter noção dos custos de oportunidade envolvidos e perceber que o tempo que cuida desse parente retira dela um tempo precioso onde poderia estar fazendo algo valioso e agradável. Tais erros não são evitáveis, mas o resultado direto do tipo de criatura que uma criança é – uma criatura que ainda não está em posição de prosseguir com projetos estressantes e indutores de ansiedade, porque ela não é capaz de perceber as razões para isso.

Surge agora a pergunta: é possível que uma criança que não esteja despreocupada de modo geral ainda sinta emoções positivas em relação a projetos e relacionamentos valiosos? O trabalho de psicólogos como Ed Diener, professor emérito da Universidade de Illinois, sugere que emoções positivas e negativas não são independentes umas das outras em um dado momento. Isso significa que essas emoções tendem a se reprimir e que quanto mais estresse e ansiedade uma criança sente, menos espaço mental ela terá para o desenvolvimento de emoções positivas em relação à projetos e relacionamentos valiosos. Portanto, uma criança que não é despreocupada carece do espaço mental necessário para desfrutar de todas as coisas boas de sua vida.

Se queremos que as crianças aproveitem seu tempo de brincar, sua educação, amizades e relacionamentos familiares, sentindo alegria, diversão e prazer em relação a elas – e, assim, levar uma boa vida como crianças – é melhor criarmos condições para que as crianças não apenas acessem tais bens, mas também sintam-se despreocupadas. Isso, por sua vez, exige que os governos que estejam dispostos a levar a sério a saúde mental das pessoas desde a tenra idade criem políticas que coloquem a despreocupação como um dos pilares para que uma criança tenha uma infância onde tudo corra bem.

Luara Ferracioli é professora de filosofia política na Universidade de Sydney. Ela está finalizando um livro sobre a ética da imigração.

Traduzido por João Paulo Morais

Texto original publicado em aeon.co, com licença para tradução e redistribuição. Para maiores informações sobre direitos autorais do texto original, aeon.co/republish.

Fotografia por Robert Collins via Unsplash

Author: João Paulo Morais

Bacharel em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutor em física pela Universidade Federal da Paraíba, com estágio de doutoramento na Jacobs University, Bremen.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *